Agronegócios na CPLP: Entrevista com o presidente da Câmara Agrícola Lusófona

Jorge Correia Santos,

Presidente da Câmara Agrícola Lusófona

 

    A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) apresenta enormes potenciais nos setores da Agricultura e da Pecuária. Entre diversos outros potenciais, trata-se de um grupo que possui grande quantidade de terras aráveis e reúne nove países voltados para o Mar. Para compreender melhor as tendências e oportunidades do setor do Agronegócio na CPLP, entrevistamos o presidente da Câmara Agrícola Lusófona (CAL), Jorge Correia Santos.

 

Qual a importância do Agronegócio para os países de Língua Portuguesa?

    O Agronegócio é, na minha opinião, o setor mais importante da CPLP. Não só porque tem um peso determinante no Brasil, mas também por causa do potencial de desenvolvimento em países como Angola e Moçambique. Muitos dos países de Língua Portuguesa possuem hoje uma enorme dependência na importação do setor agroalimentar, mas são economias que possuem forte potencial para se tornarem não apenas autossuficientes, mas exportadoras de produtos agropecuários.

Quais os principais desafios atuais para o desenvolvimento desse setor na CPLP?

    Eu diria que o fundamental é a logística, principalmente a qualidade dos portos, das ferrovias e das rodovias. Em muitos casos o Agronegócio na CPLP é prejudicado por questões logísticas. Outra questão relevante é a dimensão das propriedades, que ainda estão muito concentradas apenas nas grandes corporações, o que dificulta a entrada de pequenas e médias empresas. Também é muito importante evoluir no âmbito da facilidade do acesso ao crédito.

Como a logística afeta, na prática, o Agronegócio nesses países?

    Se, por exemplo, eu consigo produzir soja em Angola por 150 dólares a tonelada, levar essa produção até o porto custa mais 150 dólares, enquanto que para tirá-la do porto para exportar já é um gasto de mais 30 dólares. Supondo que o preço no mercado internacional é de 290 dólares a tonelada, já estou com um prejuízo de 40 dólares. Principalmente nos países africanos de Língua Portuguesa, há um enorme potencial de produção agropecuária, mas o processo de logística encarece essa produção e diminui a competitividade internacional desses países. Mesmo assim, a logística evoluiu muito nos últimos dez anos.

Como a CAL apoia a internacionalização de empresas?

    Nosso apoio começa pelas missões empresariais, mas oferecemos também o Anuário do Agronegócio, o Guia de Internacionalização e outras opções de publicações. Também organizamos seminários e conferências focados na inovação e na internacionalização. Além disso, apoiamos as empresas no acesso a financiamento por meio de uma série de instituições parceiras da CAL.

Como funcionam as missões empresariais organizadas pela CAL?

    Nós organizamos missões para os países africanos de Língua Portuguesa e para o Brasil. São visitas muito focadas que tem como objetivo permitir que os participantes iniciem contato com as empresas locais e representantes políticos. Nesse sentido, sempre visitamos ao menos um porto e uma instituição bancária. Uma questão interessante é que organizamos sempre um seminário no país visitado, no qual reunimos empresas com instituições bancárias e representantes políticos, com uma rodada de reuniões B2B.

Em fevereiro, a CAL organizou uma missão a São Tomé e Príncipe. Quais os potenciais agrícolas desse país?

    São Tomé e Príncipe consiste em um mercado pequeno. Praticamente tudo o que o país consome de produtos agroalimentares é importado, portanto é um mercado interessante para empresas exportadoras de alimentos. Há uma boa procura por embalados, leguminosas secas, farinha de trigo ou de milho, arroz, bebidas e conservas.

Na sua opinião, como deve evoluir o Agronegócio em Moçambique nos próximos anos?

    Moçambique é um país com excelentes condições para a produção Agropecuária. Trata-se de um mercado que deve evoluir muito nos próximos anos por causa de grandes projetos de investimento, como o Corredor de Nacala. Províncias como Cabo Delgado e Nampula, no Norte do país, devem passar por um desenvolvimento forte, principalmente no Agronegócio. Por esse motivo, em maio de 2016 teremos uma missão para essas províncias.

Qual a sua opinião sobre o presente e o futuro do Agronegócio em Angola?

    Angola possui uma extensa rede hidrográfica, tem excelentes solos e uma boa posição estratégica. Portanto é uma economia com potencial de se tornar autossuficiente no Agronegócio e até passar a exportar. O país vive, hoje, uma maior necessidade de diversificar a produção, o que deve beneficiar setores como o Agronegócio. Há um enorme potencial na produção de todos os tipos de alimentos que são consumidos internamente.

Quais os maiores obstáculos atuais para o Agronegócio brasileiro?

    Eu considero que só há poucas empresas brasileiras do Agronegócio que realmente exportam: a BRF, a Friboi, a Maggi e a Coamo. As demais empresas vendem a Ex Works ou FOB. O Brasil precisa mudar sua cultura empresarial, aumentar o valor acrescentado dos produtos agrícolas, investir em logística interna e exportar para países mais variados. A crise econômica atual deve ser vista como uma janela de oportunidades.

Quais tendências devemos esperar para o Agronegócio em países de Língua Portuguesa?

    A população mundial deve chegar a 9 bilhões até 2050, portanto a procura por alimentos deve crescer muito. Nesse sentido, as grandes multinacionais devem investir nas terras aráveis das economias em desenvolvimento. Com isso, deve haver um crescimento da exportação de, por exemplo, suínos, aves e ovos. Nesse contexto, acredito que o continente africano deve surgir como um grande fornecedor de alimentos ao resto do mundo.

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