Entrevista: Mário Costa, Presidente da União de Exportadores da CPLP

Mário Costa,

Presidente da União de Exportadores da CPLP

 

Parcerias empresariais, livre circulação, certificação, formação e instabilidade econômica. Esses cinco aspectos estão entre os temas de maior importância dentro do âmbito dos negócios dentro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e, como consequência, são alvos de frequentes notícias e análises. Não por acaso, todas essas questões foram debatidas na entrevista com presidente da União de Exportadores da CPLP (UE-CPLP), Mário Costa. Leia a seguir as opiniões e experiências expressas por um dos maiores especialistas e promotores dos negócios entre os países de Língua Portuguesa.

 

Quais as prioridades e metas da União de Exportadores da CPLP?

    A UE-CPLP tem como objetivo final aumentar o bem-estar dos povos dessa comunidade. Para isso, é preciso criar riqueza e emprego. Trabalhamos para a efetivação dos negócios entre os países de Língua Portuguesa, principalmente entre pequenas e médias empresas. O fluxo comercial que existe hoje entre esses países é muito focado apenas em operações de exportações e importações de um mercado para outro, mas queremos que seja mais um sistema de parcerias. Ou seja, ao invés de estimular que, por exemplo, um português faça negócios com um moçambicano, queremos que os empresários da CPLP se juntem e criem empresas com a bandeira da comunidade. Além disso, a UE-CPLP trabalha com projetos estratégicos em cada país para ajudar a reduzir constrangimentos às economias nacionais.

Como poderão ocorrer essas parcerias entre as empresas dos países de Língua Portuguesa?

    Atualmente, empresas do Brasil e de Portugal tem a necessidade de expandirem seus negócios além dos seus países de origem e possuem know-how e tecnologia suficientes para terem sucesso no exterior. Nós queremos que essas entidades aproveitem esse potencial ao serviço dos demais países da CPLP, que apresentam muitas oportunidades pouco aproveitadas.

Em fevereiro, ocorreu no Timor-Leste a II Reunião de Ministros do Comércio da CPLP.Qual a importância da Declaração Final desse encontro?

    A declaração mostrou que a CPLP vai afirmar e dar maior importância ao seu quarto pilar, que é o setor econômico. Ou seja, a instituição comprometeu-se com a dinamização do setor empresarial dentro dos países de Língua Portuguesa. A entidade CPLP surgiu há 20 anos com uma vocação mais política e cultural, mas neste momento os países sentem a necessidade de ter algo mais no sentido de combater a estagnação econômica e a dependência no Petróleo. Esse encontro de fevereiro foi importante para afirmar o papel que o setor privado deve ter como um pilar para o desenvolvimento dessa comunidade.

A livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais na CPLP é cada vez mais defendida. Quais os principais desafios que são ou deverão ser enfrentados para alcançar esse fim?

    A livre circulação é um objetivo, mas sei que é uma utopia no curto ou médio prazo. Nós vimos, por exemplo, os recentes problemas de segurança e terrorismo que existem dentro do espaço europeu. Mesmo assim, não precisamos ficar no outro extremo. Devemos trabalhar para facilitar os negócios, criando uma espécie de corredor empresarial entre os países da CPLP. Não podem acontecer, como já ocorreu conosco, novos casos de negócios perdidos por causa de, por exemplo, atrasos com vistos. Ou seja, acho que deve haver uma facilitação para os vistos de empresários que preencham certos requisitos e que devem existir vistos de maior duração pra empresários que já possuem negócios em outros países. Eu próprio, por exemplo, tenho agora um visto de um ano para entrar na Guiné Equatorial para facilitar os trabalhos da UE-CPLP nesse país. Acredito que os ministros de Negócios Estrangeiros ou Relações Exteriores devem se reunir e definir os critérios para permitir esses tipos de vistos para empresários. Poderia, até, existir um visto da CPLP ao invés de um com caráter nacional.

Quais os maiores obstáculos para o crescimento das Pequenas e Médias Empresas na CPLP?

    Acima de tudo, acho que há um constrangimento cultural. É necessário que os empresários percebam que não precisam comprar matérias-primas baratas e vender um produto acabado deixando a riqueza apenas no país de origem. Dadas as diferenças e complementariedades que existem dentro da CPLP, é importante haver mais parcerias entre pequenas e médias empresas como as que já ocorrem em grandes entidades. Para os bons negócios acontecerem, é preciso que uma empresa se instale em outro país por meio de parcerias, deixar que todas as partes ganhem por meio da produção de riqueza no país de destino. O importante é o compartilhamento de know-how, de tecnologia e de conhecimento de mercado.

Na sua opinião, quais setores empresariais deveriam atrair mais atenção de investidores na CPLP?

    A Agricultura, a Agroindústria, o Turismo, a Energia, a Pesca e, em alguns países, a construção de Infraestrutura. São setores de atividade estratégicos para os países porque permitem que sejam supridas algumas necessidades de importação, além da possibilidade de exportação de excedentes. No caso do Timor-Leste, por exemplo, 99% do rendimento gerado internamente vão para o exterior para permitir a importação dessas categorias de produtos. Portanto, se os investidores ajudarem a captar recursos para desenvolver esses recursos, será gerada riqueza dentro do país, será reduzido o problema da dependência das importações e ainda serão estimuladas as exportações. Muitos outros países de Língua Portuguesa vivem situações semelhantes.

No início de abril, a UE-CPLP organizou uma importante visita à Guiné-Equatorial. Quais foram as principais conquistas da viagem?

    A visita foi de extrema importância porque permitiu a criação do Instituto de Certificação e Formação da CPLP da Guiné Equatorial, que vai revolucionar esse país em termos econômicos. A economia equatoguineense está muito dependente do Petróleo e, portanto, esse instituto surgiu com o objetivo de modernizar e intensificar o setor agrícola do país por meio de duas formas de atuação. Primeiro, a certificação dos produtos agrícolas é essencial para permitir o escoamento dessa produção para os mercados internacionais. Segundo, a economia agrícola da Guiné Equatorial é ainda de subsistência e, por meio da formação dos agricultores, o instituto permitirá uma transição para um setor agrícola mais industrial e vocacionado ao mercado. Por ser um país de dimensão reduzida quando comparado com outros membros da CPLP, é mais fácil observar os impactos dessas atividades e, portanto, esperamos que no final de 2017 já teremos resultados práticos de diversificação econômica. No início de junho, assinamos uma parceria semelhante em São Tomé e Príncipe e já estamos em negociação com um terceiro país, cujo nome anunciarei em breve.

Na sua opinião, quais as melhores oportunidades de investimento na Guiné-Equatorial?

    A prioridade econômica do Governo Guiné Equatorial é acabar com a dependência no Petróleo. Para tal fim, o importante agora é promover os setores de mão-de-obra intensiva, como a indústria transformadora. O interesse do Governo é atrair empresas que transformem produtos para empregar a mão-de-obra local e, automaticamente, para gerar valor acrescentado no país. Ou seja, eles buscam empresários que queiram transformar as matérias-primas que o país já possui, formar a população local, gerar emprego e escoar a produção para o mercado interno e para a exportação. Quando conversei com representantes do Governo, fui informado de que procuram estimular a Agricultura, as Pescas, a distribuição de água e a produção de vidro, embalagens, plástico, têxteis e móveis. O país está muito receptivo para investidores desses setores, mas é essencial entrar lá com parceiros locais. Não há mais uma grande procura no setor da Construção Civil, pois o país já está bem equipado.

Algumas economias da CPLP vivem hoje uma instabilidade. Qual a sua opinião sobre as consequências desse cenário?

    Em termos econômicos, as crises são momentos de oportunidade. Angola, por exemplo, está passando por uma situação complicada e, portanto, vive um momento de investimento em formação e em ações de diversificação econômica. Mesmo assim, entendemos que essas crises são parte de um processo cíclico e, portanto, haverão outros fatores positivos fortes que permitirão um cenário de maior empregabilidade e bem-estar.

Por fim, qual a sua opinião sobre a evolução futura da cooperação econômica e empresarial na CPLP?

    Para mim, a economia é o pilar mais importante da CPLP. Essa comunidade é vista com um enorme potencial de desenvolvimento econômico e pode chegar a ser um mercado único. Penso que esse percurso ainda vai demorar algumas décadas, mas acredito que a CPLP está caminhando nessa direção a passos firmes. Espero um cenário de dinamização das pequenas e médias empresas, que são as que mais empregam dentro da comunidade. Como presidente da UE-CPLP, viajo com muita frequência a todos os países de Língua Portuguesa e vejo grande receptividade em todos na interação com cidadãos de outros membros da comunidade. Em fevereiro, levamos ao Timor-Leste a maior delegação empresarial portuguesa no continente asiático de todos os tempos, o que demonstra o crescente interesse que existe nesses mercados. Se nós conseguirmos aproximar culturalmente esses povos de forma a que eles saibam interagir com uma relação win-win, penso que teremos o mercado único da CPLP em algumas décadas e uma potência econômica mundial.

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