Entrevistamos Eduardo Arantes Ferreira, Presidente da Câmara de Comércio Angola Brasil

Eduardo Arantes Ferreira,

Presidente da Câmara de Comércio Angola Brasil

    Angola e Brasil. Duas das maiores economias entre os países de Língua Portuguesa. Uma das mais fortes parcerias do Atlântico Sul. Não à toa, as proximidades entre esses dois mercados proporcionaram o sucesso de diversos casos de pequenas, médias e grandes empresas.

    Atualmente, no entanto, os dois países passam por períodos de desafios econômicos. Recentes quedas acentuadas no preço do petróleo afetaram as duas economias, mas diferentes fatores também complicaram ainda mais a situação.

    Diante desse potencial e do cenário atual, a Mercados & Estratégias conversou com Eduardo Arantes Ferreira, presidente da Câmara de Comércio Angola Brasil. Leia nas páginas seguintes as experiências, opiniões e visões de um dos mais experientes promotores dos negócios entre esses dois países.

Quais são os principais atrativos do mercado angolano para os empresários brasileiros?

Primeiramente agradeço a todos da revista Mercados & Estratégias pela atenção dispensada a nós e ao trabalho que fazem sobre o mercado angolano. Como todo país que sai de uma guerra civil, Angola despertou para o mundo no ano de 2001 e estabeleceu uma república democrática em tempo de paz. Nos primeiros 12 anos atingiu níveis altíssimos de crescimento de seu PIB e a partir de 2013 continuou com seu crescimento forte, mas em patamares mais conservadores. O segundo semestre do ano de 2014 marcou o início de uma forte crise financeira totalmente causada pela desvalorização do preço do barril de petróleo, que representa 75% do PIB angolano. Esse fato causou uma diminuição acentuada da atividade econômica, por outro lado estimulou grandemente a iniciativa privada e pública por desenvolver o PIB não petrolífero. Isso está acontecendo desde então. Inúmeras oportunidades no mercado angolano se abriram para empresários brasileiros interessados em investir naquele país.

Além de entrar em contato com a Câmara, quais os primeiros passos que uma empresa deve adotar para entrar em Angola?

Como disse na resposta anterior, existe agora uma grande oportunidade para o empresário brasileiro entrar no mercado angolano investindo em várias e diferentes áreas da economia por uma simples razão: Angola ainda produz muito pouco do que necessita e recorre a importações com muita frequência. Lembrando-nos da crise do petróleo, devemos salientar que se torna mais difícil para eles importarem por conta da falta de divisas em moeda forte. A saída para o angolano é fazer parcerias com os empresários brasileiros para distribuição de seus produtos e serviços dentro de Angola. Faz dois anos que a crise começou. Foram anos de dificuldades. Hoje, no entanto, já se enxerga a luz no final do túnel. Agora é a hora certa de se iniciar a prospecção de oportunidades e de parceiros angolanos com perfil e potencial de serem sócios dos empresários brasileiros.

Na sua opinião, quais setores produtivos em Angola oferecem boas oportunidades ainda pouco aproveitadas por empresas brasileiras? Por quê?

Durante muitos anos o setor da construção civil em Angola atraiu as maiores empreiteiras brasileiras do setor. Estradas e condomínios residenciais ou comerciais eram feitos principalmente pelos brasileiros. Hoje esse cenário mudou. As empresas estrangeiras que estão se adaptando melhor são aquelas que estão investindo no mercado angolano e produzindo em Angola, e não apenas vendendo para Angola.  Nesse sentido, o mercado está totalmente aberto para as empresas brasileiras que tem isso em mente e estão com o firme propósito de fincarem um pé lá. Quanto ao mercado de construção civil, empresas chinesas entenderam as mudanças e antes de todo mundo, começaram a investir em Angola e, logicamente, a colher os seus frutos.

Quais os obstáculos mais comumente enfrentados por investidores brasileiros em Angola?

O primeiro e mais triste é o medo. Medo principalmente do desconhecido. Não sabem o que esperar e não sabem onde buscar as respostas corretas. Não é de nenhuma valia ouvir alguém dizer simplesmente que Angola não tem dinheiro. Dinheiro para quê? Para vender um container de alguma coisa e receber adiantado? Pois eu digo que existe esse dinheiro para pagar pelo seu container. Não se esqueça de que Angola ainda importa a maioria do que consome, logo, alguém está fazendo negócios por lá. O problema é que o empresário brasileiro não sabe onde buscar as informações corretas, não sabe como fazer a operação financeira dar certo. Estamos falando de outro país, com suas idiossincrasias, portando é necessário conhecer a cultura, o modo de operação que funciona lá. Quando o empresário finalmente compreende isso tudo, ele perde o medo e parte para a concretização dos negócios.

Quais são os principais atrativos do mercado brasileiro para os empresários angolanos?

O fluxo de negócios de Angola para o Brasil ainda é muito pequeno, pois o próprio angolano ainda tem um manancial enorme a ser explorado em Angola.

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Tanto Angola quanto Brasil enfrentam um cenário de instabilidade econômica. Quais as consequências para os negócios entre os dois países?

Tanto um país como o outro enfrentam suas crises. No Brasil, a crise é principalmente política e econômica, enquanto em Angola é mais econômica, como falei anteriormente. Tanto um como outro não estão parados e sim se esforçando para sanar esses problemas. Tanto um quanto outro sairão dessas situações. Crises vão e vem, e sempre será assim nesse mundo. Como as resolvemos é onde reside a beleza da coisa.  A consequência para os negócios? Já está melhorando. Como disse há pouco, a luz no final do túnel está ficando mais e mais forte.

Na sua opinião, quais medidas devem ser tomadas para promover a evolução dos negócios entre Brasil e Angola?

Primeiro, mais missões comerciais de empresários brasileiros para Angola para verem e ouvirem in loco o que podem esperar dos negócios com o mercado angolano. Segundo, mais estudos de viabilidade encomendados pelos brasileiros para conhecer melhor aquele país e entender como obter uma fatia daquele bolo.  Não falo nada sobre as medidas governamentais brasileiras, porque conheço a morosidade aqui no nosso país nesse quesito. O governo angolano, por outro lado, está se movimentando e criando um melhor cenário para receber os investimentos estrangeiros, o que é um bom sinal.

Como acredita que será a evolução econômica de Angola durante os próximos anos? Por quê?

Eu acredito muito no potencial econômico de Angola para os próximos anos. Primeiramente porque Angola já está convivendo com essa crise há dois anos, já entenderam o que necessitam fazer para contornarem a crise e estão tomando medidas positivas nesse sentido. No próximo mês de agosto haverá eleições para presidente e todos depositam uma grande esperança na mudança. Irá mudar realmente, pois o atual presidente não é candidato. Seja quem for o próximo presidente, ele trará ideias novas e progressistas. As necessidades continuarão existindo, assim como as oportunidades.

Como acredita que será a evolução da economia do Brasil durante os próximos anos? Por quê?

O Brasil é um grande país e, por conta disso, tem uma enorme inércia, tanto para o bem quanto para o mal. No caso atual, pelo tamanho de sua economia, o Brasil não irá quebrar. Vai ficar arranhado, é verdade, e ainda irá sofrer bastante pelo conturbado cenário político que passamos, mas no curto prazo já iremos sentir as primeiras melhoras. O remédio está sendo amargo, mas precisávamos tomá-lo para tentar curar a raiz de nossa doença.

Qual a sua opinião sobre o futuro das relações econômicas entre esses dois países? Por quê?

Invariavelmente será muito positiva. Haja visto as várias empresas que vem até a Câmara Angola Brasil para pedir ajuda com o mercado angolano. Vale lembrar que Angola está entre as quatro maiores economias da África e faz parte de diversos blocos econômicos, fato que facilita a comercialização de seus produtos em outros países africanos. Isso não se constrói do dia para a noite. Nem tão pouco se destrói.

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