Entrevistamos Frederico Silva, co-fundador do maior portal de emprego de Moçambique

Frederico P. Silva,

Co-fundador do portal emprego.co.mz

Em 2012, o moçambicano Frederico Silva, em parceria com Tiago Coelho, fundou a UX, empresa do setor da Tecnologia da Informação (TI) responsável pelo emprego.co.mz, o maior portal de oportunidades de trabalho de Moçambique. Em 2014, a UX foi reconhecida como a startup moçambicana de maior potencial no setor da TI. Como resultado, passou por um programa de incubação no Vale do Silício, maior polo industrial mundial desse setor.

Após receber inúmeros prêmios e grande reconhecimento internacional, a UX encontra-se hoje em fase de expansão para Angola com o lançamento do emprego.co.ao, plataforma de oportunidades de trabalho no mercado angolano. Ao mesmo tempo, o grupo lança o biscate.co.mz, portal em Moçambique focado para vagas de trabalho informal. Para descobrir mais sobre as experiências e opiniões da UX, entrevistamos seu CEO, Frederico Silva.

 

O emprego.co.mz é hoje a maior plataforma de oportunidades de trabalho de Moçambique. Quais fatores foram, na sua opinião, essenciais para esse sucesso?

Acredito que existem diversos fatores para esse feito. Tudo começa com uma clara definição do problema. Creio que entender a falta de acesso à informação como uma causa significativa para o desemprego foi um passo essencial para a concepção desta solução. Segundo, o nosso conhecimento da realidade local, no que diz respeito às limitações da internet e ao baixo nível de usabilidade, que fez com que desenvolvêssemos a plataforma com foco no desempenho e adotássemos uma filosofia de design minimalista e user friendly. Terceiro, a estratégia de marketing digital, através das redes sociais e otimização de motores de busca, que posicionou o emprego.co.mz no topo da lista de pesquisa pela palavra “emprego”. Destaco, também, o timing em que foi lançada a plataforma, uma vez que o mercado estava numa fase de crescimento, devido em parte ao setor de petróleo e gás, e que o recrutamento estava em alta. Quinto, o nosso modelo de negócio, alicerçado num modelo de subsídio cruzado e focado no impacto social. Por fim, diria que a equipe da UX, os parceiros, os utilizadores e todos aqueles que de alguma forma interagem com a plataforma foram parte deste sucesso.

Por outro lado, quais os maiores desafios que a UX enfrentou para atingir essa liderança?

A UX foi uma startup pioneira em Moçambique, um mercado conservador onde jovens e empresas recém-formadas  são conotados pela sua inexperiência e não pelo seu potencial. Um dos maiores desafios foi ter a capacidade de mudar essa percepção, algo que se tornou num dos objetivos da empresa.  Ainda nesse contexto, o mercado não apresentava a estrutura que o torna propício às startups do ponto de vista de investimento e mentoria. Não existiam incubadoras, investidores anjo, aceleradoras de negócios ou mesmo capitais de risco, o que obrigou a que a empresa tivesse um crescimento orgânico e focasse bastantes dos seus recursos em áreas paralelas ao desenvolvimento de produto, como, por exemplo, consultoria técnica. Por outro lado, o quadro legal não está preparado para negócios dessa natureza, o que faz com que tenhamos poucos incentivos do ponto de vista fiscal, o que dificulta principalmente a fase de arranque. 

Leia também: A situação atual da economia de Moçambique


Quais foram as principais motivações pessoais que o levaram a investir no emprego.co.mz?

Moçambique foi durante sensivelmente sete anos considerado como uma das economias com maior taxa de crescimento a nível global. No entanto, o país manteve-se como o nono pior país no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Tenho a perfeita noção de que tive uma infância privilegiada, e, talvez por isso, me seja difícil aceitar essa discrepância entre o crescimento econômico e o desenvolvimento social. O emprego.co.mz foi a nossa resposta às lacunas do mercado de trabalho Moçambicano, no que diz respeito à falta de acesso à informação referente a oportunidades de trabalho, e uma forma de mitigarmos uma das causas de desemprego no país.

Também em Moçambique, a UX está em fase de lançamento do biscate.co.mz. Como funciona esse novo portal?

Passados dois anos, com o sucesso do emprego.co.mz, percebemos duas limitações dessa plataforma que nos impediam de democratizar a informação no mercado laboral local. Primeiro, existem apenas cerca de 700 mil postos de emprego formal em Moçambique. Segundo, a taxa de penetração da internet é, de acordo com o Banco Mundial, de 6%. Nessa altura, constatamos que o setor informal constituía 95% da população economicamente ativa e sentimos a necessidade de criar uma tecnologia que abrangesse esse segmento populacional. O conceito do Biscate surge quando reparamos as várias placas de madeira que estão espalhadas pela cidade contendo um número de telefone e a profissão do trabalhador. Sentimos que a solução passava por desenvolver uma tecnologia híbrida, que permitisse a um trabalhador com um telefone básico, sem acesso à internet, registar o seu perfil para que o mesmo fosse disponibilizado online e que clientes pudessem aceder através de um smartphone ou computador. Desta forma, pretendemos gerar receita para o segmento de baixa renda através do aumento de oportunidades de trabalho e, em paralelo, proporcionar o acesso a este tipo de serviços de forma credível.

A economia de Moçambique passa por um período de desafios. Como esse cenário afeta o mercado de trabalho hoje?

Moçambique atravessa uma fase de crise e essa se traduz em diferentes vertentes, tais como político-militar, econômico-financeira e, consequentemente, social. Certamente isso terá um impacto no mercado de trabalho sob o ponto de vista da capacidade de contratação e remuneração das empresas e a sua redução em número, mas também irá se refletir numa maior escassez de mão de obra qualificada, sendo que muitos estrangeiros estão abandonando o país. No entanto, acredito também que os serviços ligados à área de recrutamento se manterão válidos, uma vez que existirá um processo de substituição de mão-de-obra resultante da necessidade de redução de custos das empresas.

Leia também: "O imbróglio da dívida moçambicana: extratégias de extraversão", por Gabrieli Gaio

Que conselhos diria para um empreendedor que pretende abrir um negócio em Moçambique?

A meu ver, empreender é uma necessidade que ganha ênfase em períodos de crise. Quantos mais problemas, mais oportunidades de os solucionar. Há sempre quem adote uma abordagem de “copo meio cheio” e opte por arriscar mesmo quando o mercado demonstra fragilidades. Diria a qualquer empreendedor que analisasse o risco tal como em qualquer outra situação. Contudo, teria também de ter noção das adversidades que se encontram atualmente: a rápida depreciação cambial do Metical, a dificuldade em expatriar capital, períodos de retorno no investimento mais longos, entre outras. Se após uma análise cuidada desses fatores ainda existisse apetite por parte do empreendedor, essa poderia ser uma oportunidade ímpar para singrar nesse mercado. É uma fase em que somos quase que obrigados a contrariar o paradigma comum de um país em desenvolvimento, a dependência nas importações, e passar a desenvolver produtos locais adequados à realidade atual.

Em maio, a UX lançou o emprego.co.ao. Quais fatores mais atraíram a empresa para o mercado angolano?

O mercado angolano tem várias semelhanças culturais que o tornam particularmente atrativo e facilitaram o processo de replicar a plataforma emprego.co.mz sem que tivéssemos que efetuar grandes alterações para contextualizá-la. Por outro lado, o fato de contarmos com um network a priori, permitiu que identificássemos o parceiro ideal para atuar nesse mercado.

Sentimos em Angola uma economia em recessão cujas consequências se refletem no mercado trabalhista desse país. Essa é uma fase em que projetos focados no impacto social e, mais especificamente, na empregabilidade, tornam-se extremamente relevantes. Como tal, achamos relevante que o nosso contributo se fizesse sentir neste período.

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Quais foram os principais de na expansão para Angola?

A fase em que o mercado se encontra faz com que as empresas estejam em contenção de custos e limitem as contratações ao mínimo e indispensável. Isso faz com que existam algumas barreiras na entrada para o mercado, até que as empresas compreendam a nossa solução como algo que proporciona eficiência de custo e nos processos levados a cabo pelas mesmas. O nível de usabilidade em Angola é relativamente baixo, o que se reflete na proficiência no uso desse tipo de aplicativos. Ou seja, notamos que alguns dos candidatos têm certas dificuldades em registar o seu perfil e se candidatarem às vagas disponíveis. Por fim, a contratação de uma equipe jovem que abrace essa iniciativa e eleve o perfil da marca está também revelando-se um desafio. 

Como acredita que o mercado de trabalho angolano deverá evoluir?

Creio que a médio prazo Angola deverá ultrapassar a fase em que se encontra e, possivelmente, iniciar a diversificação da sua economia. Isso irá certamente representar novas oportunidades de trabalho nos setores-chave para o crescimento do país. Por outro lado, será cada vez mais necessário que haja informação sobre a evolução desse mercado para que se possam tomar decisões relativamente ao mesmo e sinto que os portais online têm se demonstrado cada vez mais relevantes para esse efeito.

 

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