Entrevistamos Georgina de Mello, Diretora Geral da CPLP

Georgina de Mello,

Diretora Geral da CPLP

    Experiência. O reconhecido histórico de conhecimento adquirido em anos de trabalho tanto em funções públicas quanto privadas foi muito ressaltado quando, em 2014, foi nomeada a atual Diretora Geral da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Nascida em Cabo Verde, Georgina de Mello formou-se em Economia em Portugal, mas também estudou em seu país natal, no Brasil e nos Estados Unidos. Já trabalhou em projetos financiados pelo Banco Mundial e pelas Nações Unidas, foi administradora da Transportes Aéreos de Cabo Verde, instalou e dirigiu a agência de promoção do investimento e das exportações do Timor-Leste e colaborou para a área econômica do Ministério do Turismo, Indústria e Energia de Cabo Verde, além de outras experiências.

    A Mercados & Estratégias conversou pessoalmente com Georgina de Mello a fim de conhecer melhor suas experiências, opiniões e visões sobre a área de Economia e Negócios da CPLP. Leia a seguir.

Na sua cerimônia de posse, em 2014, anunciou que trabalha focada em abrir a CPLP à sociedade e às empresas. Qual a importância desse objetivo?

Esse objetivo está proclamado pelos Chefes de Estado e de Governo da CPLP desde a declaração constitutiva da instituição. É natural que se busque abrir a CPLP para a sociedade porque não é possível promover o desenvolvimento harmonioso sem as pessoas. No que diz respeito às empresas, essas também são parte essencial dessa promoção do desenvolvimento, principalmente no que concerne à criação sustentável de emprego dentro da comunidade.

Quais setores produtivos considera que possuem maior potencial para o desenvolvimento dos Estados-Membros da CPLP?

Acredito já há muito tempo que crescimento e desenvolvimento são processos distintos. Nesse sentido, para incentivarmos os setores que vão promover o desenvolvimento, temos que ver onde estão as pessoas. Temos que ver os setores que propiciam um crescimento mais inclusivo, que beneficia as camadas mais desfavorecidas das nossas sociedades. Também é importante destacar os setores que promovam o envolvimento das pequenas e médias empresas, que são as que estão mais entranhadas no tecido social e, portanto, que podem ter maior impacto em desencadear os processos de crescimento e de desenvolvimento. Nossos países são muitos distintos, mas acredito que há alguns setores com potencial que podemos encontrar em todos ou quase todos, como a Agricultura, a Pesca, o Turismo e a Agroindústria.

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Na sua opinião, quais são os principais desafios atuais para o desenvolvimento econômico dos países de Língua Portuguesa?

Em geral, penso que o grande desafio é a diversificação da economia, com destaque para os países africanos e o Timor-Leste. Precisamos sair de uma situação de dependência em um ou em poucos setores. Outro importante desafio é o desenvolvimento das cadeias de valor. Na Agricultura, por exemplo, temos um potencial de exportação de produtos de nicho muito procurados em grandes mercados internacionais, como a Europa, mas falta uma cadeia de valor que permita processos de embalagem, certificação e rotulagem para esses produtos. Em muitos casos, pelo contrário, há excedentes de produção que acabam apodrecendo em seus países de origem. Outra preocupação de grande relevância é a proteção do meio ambiente por meio do desenvolvimento sustentável. Não podemos crescer e desenvolver de forma destrutiva para as próximas gerações.

Quais esforços acredita que devem ser tomados para promover o surgimento e crescimento de Pequenas e Médias Empresas (PME) na CPLP?

Acredito que a primeira na minha lista de prioridades é a promoção do acesso ao crédito. Existe já algum crédito em certos países da CPLP, mas o mesmo está ligado a um sistema mais tradicional que exige um conjunto de requisitos que a maioria das PME dificilmente tem condições de cumprir. De uma forma geral, também é preciso haver ambientes de negócios mais favoráveis, principalmente na redução da burocracia, que normalmente é muito pesada nos nossos países. Há já um esforço bastante grande que vem sendo feito nesse sentido, mas acredito que é preciso trabalhar mais. Existem na CPLP excelentes empreendedores, incluindo jovens com ideias  espetaculares, mas que depois não conseguem as condições para transformar seus projetos em empresas reais. Já vi alguns casos de jovens que gerenciavam empresas com muitas dificuldades nos seus países de origem e acabaram mudando-se e alcançando o sucesso em outros países que ofereciam melhores condições e mais recursos.

A livre circulação de bens, serviços, pessoas e capitais na CPLP é cada vez mais defendida. Qual a sua opinião sobre essa questão?

A livre circulação é quase uma utopia, mas sem ela não há comunidade. É doloroso ver casos de estudantes que precisam ir para outro país continuar seus estudos, mas perdem um semestre até conseguirem o visto, ou empresários que desistem de visitar feiras comerciais, industriais ou artesanais por causa da burocracia. Enquanto a circulação não fluir, é muito difícil falarmos de uma comunidade.

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Quais os principais desafios que são ou deverão ser enfrentados para alcançar a livre circulação?

Penso que o que devemos fazer é um cruzamento de ações. Devemos dar mais confiança às nossas polícias no seu controle sobre as fronteiras. É preciso que as polícias consigam ter a certeza da veracidade dos documentos apresentados por cada indivíduo e, para tal, devemos trabalhar com todos os sistemas de identificação civil dos nossos países. Além disso, é preciso levar em consideração que os países da CPLP estão localizados em quatro continentes diferentes e, portanto, estão ligados a blocos regionais distintos. Como esses blocos possuem diferentes graus de integração e compromissos em termos de fronteiras, é preciso compatibilizar esse cruzamento de exigências e obrigações. Portanto é muito complicado, mas temos que encontrar os caminhos.

Há poucas semanas, Cabo Verde e Portugal manifestaram interesse na livre circulação entre os dois países. Essa aproximação bilateral pode abrir caminho para um acordo da CPLP?

Por que não? Devo acrescentar que já na Cimeira da CPLP de Brasília, em 2016, Portugal levantou essa questão. Essa preocupação foi submetida pelo Chefe de Estado de Portugal aos seus homólogos e foi efetivamente discutida. As recentes negociações entre Portugal e Cabo Verde, pela natureza muito próxima da relação entre esses dois países, podem abrir caminho para a CPLP porque a comunidade está no espírito de ambos, portanto todos já estão sendo envolvidos. Espero que a próxima Cimeira, que será na cidade da Praia, em Cabo Verde, possa trazer uma resposta mais concreta a esse anseio de tão longa data.

Atualmente, algumas economias da CPLP passam por um período de desafios. Como acredita que essa situação evoluirá nos próximos anos?

As crises são cíclicas, portanto vamos sair desta. Acho que temos que encarar esta crise com a mesma naturalidade com que encaramos outras, porque os recursos humanos e materiais que os nossos países possuem vão permitir que esse cenário seja ultrapassado. Pode levar um pouco mais de tempo quando há uma dependência muito forte em um determinado setor produtivo, daí surge a necessidade da diversificação.

Cabo Verde, seu país de origem, vive hoje com um novo Governo após uma alternância de poder. Qual futuro vê para a economia desse país?

Cabo Verde é um país pobre cuja principal riqueza são os recursos humanos. Eu vejo que a economia vai continuar a crescer e o setor privado vai ser cada vez maior. Acredito que o país vai continuar para a mudança do paradigma de desenvolvimento, criando as próprias bases e escapando da dependência na ajuda pública internacional. O setor mais dinâmico da economia nacional é o do Turismo, que representa pelo menos 20% do PIB, mas é ainda pouco conectado com a economia doméstica. Penso que nos próximos anos esse investimento no Turismo poderá aproximar-se mais das PME cabo-verdianas e estimular mais os outros setores. Não faz sentido que, por exemplo, os hotéis ofereçam frutos do mar e papaia importados em um país arquipélago com uma oferta de excelentes papaias. É preciso, portanto, o desenvolvimento das cadeias de valor para permitir que a papaia produzida em Cabo Verde seja embalada, certificada e rotulada de maneira a poder ser oferecida nos hotéis que possuem critérios rigorosos de certificação e de qualidade.

Timor-Leste é outro país onde teve uma importante experiência. Qual a sua visão sobre os potenciais e o futuro da economia e dos negócios nesse país?

Ao contrário de Cabo Verde, o Timor-Leste é um país com uma riqueza muito grande, com potencial na Pesca, na Agricultura, na Mineração, no Petróleo e em diversos outros setores. Penso que falta ainda um nível de desenvolvimento dos recursos humanos que facilite o aproveitamento dessa riqueza criando empresas e gerando emprego sustentável. Acredito que o Governo timorense está fazendo um caminho muito interessante mantendo a estabilidade, buscando parcerias e atraindo investimento estrangeiro.

Por fim, como prevê que a CPLP, no âmbito de Economia e Negócios, evoluirá durante os próximos anos?

Eu acredito que o conjunto de medidas proposto pela nova Secretária Executiva da CPLP, Maria do Carmo Silveira, deverá facilitar e promover um maior trabalho na área empresarial dentro da comunidade. Já existe um trabalho empresarial que funciona além do que acontece apenas dentro de cada país e, portanto, penso que haverá um crescimento dos fluxos de comércio e investimento. Acredito que vamos ver cada vez mais parcerias, principalmente joint ventures. O futuro vai ser melhor.

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