Entrevistamos João Chantre, vice-presidente executivo da Câmara de Comércio Portugal Cabo Verde

João Chantre,

Vice-presidente executivo da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Portugal Cabo Verde

    Dentre os nove países de Língua Portuguesa, Cabo Verde consiste no segundo menor. O arquipélago de cerca de quatro mil km2, no entanto, destaca-se com algumas relevantes oportunidades de investimento, principalmente no Turismo.

    Em março de 2016, Cabo Verde viveu um momento de alternância de poder após a eleição do MpD, partido que era de situação na década de 1990 mas atuou como oposição durante os últimos 15 anos. O novo Governo promete adotar medidas de acelerado desenvolvimento econômico e maior promoção do investimento privado.

    Para compreender melhor o presente e o futuro do mundo dos negócios no mercado cabo-verdiano, entrevistamos uma das personalidades com maior experiência nessa área. Leia nas páginas seguintes as opiniões e experiências de João Chantre, vice-presidente executivo da Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Portugal Cabo Verde.

Quais são os principais motivos para investir em Cabo Verde?

Em primeiro lugar, aquilo que é sempre mencionado quando se fala de Cabo Verde é a sua posição geográfica. O país está localizado na interseção de vários continentes – América do Sul, América do Norte, África e Europa – onde se cruzam diversas rotas comerciais marítimas e aéreas. Também vale ressaltar a estabilidade social e de políticas de Cabo Verde. Desde a independência e democratização, o país já teve três alternâncias de Governo, com períodos de maior centralismo ou de mais liberalização econômica, mas independentemente da linha de governação as oportunidades de negócio mantêm-se consistentes. Destaco áreas como agricultura, transportes marítimos, captura e transformação de pescados, distribuição e logística, energias renováveis e indústria ligeira.

Por outro lado, quais os principais desafios para uma expansão empresarial para o mercado cabo-verdiano?

Acima de tudo, há o desafio da mudança de mentalidade da administração pública. Há uma certa incapacidade de compreender o que é o investimento privado e a sua importância para a economia nacional. Além disso, apesar de o país possuir infraestruturas que foram construídas há poucos anos, não temos uma economia que funcione em cima dessa base. Temos aeroportos em todas as ilhas, mas a transportadora aérea do país funciona de forma deficiente. Possuímos bons portos em todas as ilhas, mas não há transportes marítimos capazes de garantir a boa circulação das mercadorias. Temos água nas barragens, mas o setor agrícola não possui organização suficiente para aproveitar essas reservas. Por fim, Cabo Verde sofre com falta de recursos naturais, o que limita o desenvolvimento do país.

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Quais são as prioridades dos trabalhos da Câmara de Comércio Portugal Cabo Verde?

Durante alguns anos, a Câmara trabalhou para fomentar os negócios entre Portugal e Cabo Verde mais focada na vertente do comércio, mas exportar para o mercado cabo-verdiano não é hoje um grande negócio porque o mercado consumidor interno é muito pequeno. Assim, nos últimos oito anos a nossa aposta tem sido no estímulo ao investimento nesse país. Trabalhamos buscando investidores em Portugal e alguns dos maiores investimentos atuais em Cabo Verde foram encaminhados por meio da Câmara. Nos últimos anos, no entanto, a crise econômica internacional e a crescente intervenção do Estado na economia acabaram dificultando a atratividade de capital do país. O atual Governo, por outro lado, será mais liberal e promotor da iniciativa privada. Cabo Verde é um país onde existem muitas carências e cada uma delas é uma oportunidade.

Em março, Cabo Verde passou por eleições legislativas que foram vencidas pelo MpD, partido que fora oposição durante 15 anos. Na sua opinião, como essa mudança afeta a economia do país?

Entre 1990 e 2000, o MpD também havia conseguido ser eleito e, na ocasião, o país mudou radicalmente. Antes as empresas todas pertenciam ao Estado, mas os dez anos de MpD no Governo foram marcados por privatizações, liberalização econômica e abertura de setores à iniciativa privada. Entre 2001 e 2016, por outro lado, esse partido passou a ser oposição e houve um retrocesso, um sufoco da iniciativa privada e o Estado passou a entrar na economia. Agora vamos assistir outra vez a um período de maior liberalização da economia, maior estímulo para o investidor privado e atenção à legislação fiscal. Como consequência, as boas condições para o investimento vão ressurgir.

Qual a postura adotada pelo Governo de Cabo Verde frente a investidores estrangeiros?

O Governo que acaba de sair não manifestava frontal oposição ao investimento privado. Anunciava publicamente o seu apoio ao mesmo, mas as dificuldades encontradas na sua efetiva concretização a par de uma crescente carga fiscal foram sufocando a economia e mantendo os investidores nacionais e estrangeiros distantes. Agora, o atual Governo está preparando um orçamento para 2017 e deverá lançar medidas para aliviar essa carga fiscal, o que deverá ajudar a promover o retorno do investidor estrangeiro a Cabo Verde. Naturalmente, essa instabilidade da legislação fiscal assusta alguns agentes que começam a questionar se em cinco anos, quando o mandato do atual Governo acabar, haverá mais mudanças.

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O Turismo é a indústria que mais atrai investimento em Cabo Verde. Qual a situação atual desse setor?

Trata-se de uma área que consiste em uma excelente oportunidade de investimento uma vez que o fluxo turístico para Cabo Verde está em crescimento. O Turismo foi afetado de forma considerável pela crise econômica internacional de 2008, mas já há dois anos vemos uma recuperação. Já se notam investimentos sérios e de grande dimensão no país, o que acaba trazendo benefícios a muitas outras áreas. A crescente entrada de turistas estimula o consumo, favorecendo, por exemplo, a produção nacional de produtos agrícolas e pescados, o setor do lazer e os serviços.

Além do Turismo, que setores podem oferecer oportunidades para investidores nesse país?

Há grandes oportunidades na agricultura, uma vez que temos boa disponibilidade de água e uma boa capacidade de produção. No entanto, um grande constrangimento para esse setor é o fato de muitas propriedades de terra terem sido ocupadas por privados que não possuem esse direito. No setor da pesca, além disso, há oportunidades devido à inexistência de unidades industriais de transformação de pescado, o que faz com que atualmente o consumo interno seja apenas de peixe fresco. Também há oportunidades no transporte marítimo, uma vez que o Governo está bastante interessado em resolver a deficiência da oferta atual. Por fim, vejo também possíveis negócios em serviços de manutenção, equipamentos e indústria ligeira de bens de consumo para exportação aproveitando condições favoráveis de mão-de-obra e fiscalidade.

Qual o perfil das empresas estrangeiras que mais investem em Cabo Verde?

Uma vez que trata-se de um mercado de pequena dimensão, Cabo Verde acaba atraindo muitas PME. Os principais países de origem são Portugal, Espanha e Reino Unido. Dentre os portugueses, destacam-se investidores de setores como o bancário, o dos seguros, o dos combustíveis, o têxtil, o dos calçados e o da reparação naval. Dos espanhóis, temos as unidades hoteleiras e a indústria de conservas em destaque. Do Reino Unido, por fim, ressalto algumas unidades hoteleiras e o imobiliário turístico. Em breve, creio que entrará uma empresa francesa para as concessões dos portos.

Na sua opinião, como a economia cabo-verdiana deverá evoluir nos próximos anos?

Se conseguirmos ter dez anos de uma filosofia de promoção do investimento privado e de boa recepção do investidor, como a que entrou agora com o MpD no Governo, acredito que Cabo Verde possa retomar facilmente um ritmo de crescimento na ordem dos 5 ou 6% ao ano. Se a administração for inteligente, acho que o país pode mudar completamente e assumir a sua vocação dentro do Atlântico, de interposto comercial e de ponto turístico.

Por fim, qual a sua opinião sobre o futuro das relações econômicas entre Portugal e Cabo Verde?

Os dois países possuem afinidades muito profundas e estreitas que resultam em negócios. Essas afinidades sempre existiram e sempre foram fortes. Aqui em Portugal, tenho recebido neste ano mais pedidos de informações e solicitações de missões empresariais a Cabo Verde. Principalmente por causa dos momentos de dificuldade pelos quais passam Angola e Moçambique, os investidores portugueses tem agora olhado mais para o que acontece no mercado cabo-verdiano. Acredito que poderemos reavivar o interesse português e retomar o fluxo de investimento português em Cabo Verde tal como acontecia entre 1995 e 2005, período no qual essa relação foi muito intensa.

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