Entrevistamos João Pedro Barroca, especialista na elaboração de Projetos de Investimento para os PALOP

João Pedro Barroca,

Especialista na elaboração de Projetos de Investimento para os PALOP

    Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Os seis Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) passam hoje por momentos econômicos distintos: enquanto alguns enfrentam grande instabilidade macroeconômica, outros vivem um período de forte crescimento.  Oportunidades de negócio, no entanto, surgem de todas as opções de cenários, principalmente considerando-se o enorme potencial de todos os PALOP em setores como o do Turismo, o da Infraestrutura, o da Energia e o da Agroindústria.

    Diante desse contexto, entrevistamos João Pedro Barroca, economista especialista na elaboração de Projetos de Investimento para os PALOP.

Quais fatores são essenciais para o sucesso de um projeto de investimento nos países africanos de Língua Portuguesa?

Um projeto de investimento, independentemente do seu local de implementação, deverá contemplar como fase prioritária a elaboração de um conjunto de estudos técnicos multidisciplinares que permitam analisar a viabilidade técnica, econômica e financeira do negócio com rigor e coerência. O plano de negócios e o estudo de viabilidade econômico-financeiro são de realização obrigatória e fundamental ao sucesso de qualquer projeto. No entanto, não é menos importante a realização prévia de um estudo de mercado e, dependendo da tipologia do investimento a realizar, devem ser feitos estudos técnicos que fornecerão os pressupostos necessários à realização da análise da viabilidade econômica e financeira do projeto. Entre os diversos fatores que contribuem para o sucesso de um projeto de investimento, também considero importante mencionar a estruturação das fontes de financiamento necessárias e adequadas ao negócio em questão, não descurando o aporte de capitais próprios na proporção adequada ao investimento a realizar. Outra questão importante prende-se com o facto do financiamento ser obtido no país de destino do investimento a realizar e o investidor ter que assegurar previamente que o mesmo será disponibilizado em moeda estrangeira para garantir a importação dos equipamentos necessários à operacionalização do negócio – que devem estar previstos no plano de investimento. Também será fundamental o conhecimento profundo do sistema fiscal e contabilístico do país: neste caso particular, os impostos e taxas previstas na sua pauta aduaneira. No âmbito estratégico, torna-se fundamental o estudo e a análise da envolvente externa ao negócio, nomeadamente de natureza econômica, político-legal, social, ambiental e tecnológica, pois apenas com essa abordagem multidimensional será possível conhecer a realidade local e identificar eventuais constrangimentos na implementação dos projetos que poderão derivar da existência de custos de contexto, entre outras variáveis importantes a se considerar. Além disso, outro fator muito importante prende-se com os recursos humanos escolhidos para garantir a execução e implementação do projeto de investimento e, posteriormente, a gestão do próprio negócio. É totalmente aconselhável a existência de colaboradores experientes e qualificados que venham a desempenhar funções estratégicas na empresa e tenham, inclusive, a capacidade de formar a mão-de-obra local. Por último, considero pertinente a fase de pesquisa e seleção de fornecedores credíveis e com experiência comprovada no país onde será implementando o projeto, bem como a existência de parceiros estratégicos institucionais, comerciais e técnicos. A solução adequada para colmatar a ausência de know-how e experiência profissional em determinado setor poderá passar pela criação de joint-ventures que poderão assegurar a transferência de conhecimento na implementação e gestão do negócio.

Por outro lado, quais são os principais desafios para se investir nesses países?

O principal desafio para se investir nos países referidos é, sem dúvida, possuir um conhecimento aprofundado da realidade de cada país, nomeadamente, o seu contexto econômico, político-legal, social, fiscal e laboral. É fundamental que um empresário não cometa o erro de se limitar a replicar os pressupostos assumidos em investimentos similares implementados em outros países e se convença de que será obrigatoriamente bem sucedido. Outro desafio muito importante está relacionado com a capacidade do investidor para capacitar tecnicamente a mão-de-obra local –  inclusive, esse fator deverá ser espelhado no plano de negócios e respectivo estudo de viabilidade econômico-financeiro. Além disso, outro desafio prende-se com a existência de uma política de distribuição e repatriação de dividendos que seja sustentável e não prejudique a capacidade de autofinanciamento e reinvestimento por parte da empresa. Nesse sentido, é importante referir que a análise da viabilidade e rentabilidade de um investimento seja realizada segundo uma ótica temporal de médio-longo prazo e não a curto prazo, como acontece recorrentemente.

Quais são as principais fontes de financiamento para o investimento nos PALOP?

É importante destacar a existência de linhas de financiamento bancário bonificadas, como, por exemplo, o Programa Angola Investe e Pro Jovem, em Angola, e o FinAgro, em Moçambique. Também começam a surgir as primeiras Sociedades de Capital de Risco e Fundos de Investimento que poderão vir a ter um papel preponderante no financiamento de projetos de investimento em setores estratégicos dessas economias, como, por exemplo, o FACRA, em Angola. Além disso, existem ainda as instituições multilaterais de financiamento, como o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), a União Europeia, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e programas específicos de financiamento no âmbito da cooperação internacional. Por último, não é menos importante referir que, hoje em dia, os empresários também deverão estar preparados para alocarem capitais próprios aos projetos de investimento.

Quais são os benefícios que as empresas podem conseguir por meio do InvestimoZ?

O InvestimoZ consiste em um fundo português de apoio ao investimento em Moçambique, sendo gerido pela SOFID. Destina-se ao financiamento de projetos de investimento, de iniciativa pública ou privada, inseridos em setores estruturantes da economia, como energias renováveis, meio-ambiente, infraestruturas e turismo, promovidos por empresas portuguesas ou por parcerias luso-moçambicanas. Teoricamente, e considerando a informação oficial disponibilizada pela entidade que tutela esse fundo, o mesmo apresenta condições vantajosas para os empresários, nomeadamente pelo fato de ser complementar a contribuições dos beneficiários e ao financiamento de outras instituições financeiras, sendo o custo do capital dependente da análise de risco efetuada ao projeto de investimento. Existem diversas modalidades de financiamento que deverão ser analisadas e adaptadas consoante a tipologia do projeto e em consonância com a SOFID.

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Quais as vantagens de contar com apoio do programa Angola Investe?

O Angola Investe é um programa lançado pelo Governo de Angola que visa promover a concessão de crédito por parte dos bancos comerciais às Micro, Pequenas e Médias Empresas e aos Empreendedores Singulares (MPMES) nos setores prioritários do desenvolvimento nacional, como a Indústria Transformadora e Extrativa, a Agricultura, a Pecuária, as Pescas e o Turismo. Esse programa tem sido alvo de uma melhoria constante e, sem dúvida, apresenta um conjunto de vantagens importantes no financiamento de projetos de investimento, tais como uma taxa de juro máxima de 5% e um período de carência mínimo de seis meses, com uma maturidade de financiamento igual a sete anos. Em um país onde a taxa de juro de referência está fixada em 16%, esse programa é extremamente importante para alavancar a diversificação da economia angolana. É importante referir que as empresas que pretendam candidatar-se ao Angola Investe deverão obter um certificado de MPME junto do INAPEM, pois a classificação que venham a obter condicionará o montante do financiamento atribuído pela instituição bancária.  Após a obtenção da referida certificação junto do INAPEM, o empresário deverá apresentar um plano de negócios e respectivo estudo de viabilidade econômico-financeiro na entidade bancária selecionada para financiar o seu projeto.

Quais são os erros mais comuns cometidos por empresários na elaboração de planos de negócios?

Existem vários erros comuns na elaboração planos de negócio que poderão ser responsáveis pela obtenção de diferenças significativos entre as projeções e realidade do negócio. Nesse seguimento, a ausência de um estudo prévio que permita conhecer profundamente o mercado e uma análise incompleta do setor em que a empresa irá operar e da concorrência existente são erros graves e comuns na elaboração de planos de negócio. Ainda no âmbito estratégico, é importante analisar os pontos fortes ou fracos, as oportunidades e as ameaças que o negócio apresenta, bem como realizar um estudo aprofundado da envolvente externa do mesmo, no qual deve ser considerada a dimensão econômica, social, político-legal, tecnológica e ambiental que o influencia. Outro erro muito comum consiste em não se delinearem objetivos estratégicos e operacionais coerentes com a realidade do projeto e do país onde o mesmo será implementado e executado. No âmbito da elaboração do estudo de viabilidade econômico-financeiro, um dos erros mais comuns consiste na sobrevalorização do modelo de receita delineado e das margens brutas estimadas. Por sua vez, a subvalorização dos custos operacionais existentes, nomeadamente ao nível dos fornecimentos, serviços externos e gastos com pessoal, constitui outro erro comum. Além disso, nem todos os planos de negócio incluem uma análise de sensibilidade às principais variáveis do projeto, não permitindo, assim, analisar o impacto de variações que, na realidade, facilmente poderão ocorrer e alterar a sua viabilidade. Por último, pode-se ainda referir que outro erro comum reside na elaboração dos planos de investimento, nomeadamente no cálculo das necessidades iniciais de fundo de maneio inerentes ao projeto e ausência de uma margem de segurança de tesouraria que permita fazer face a eventuais imprevistos na execução dos investimentos, desvios na procura projetada e variações cambiais.

A economia de Angola passa hoje por um período de desafios. Quais oportunidades de negócio acredita que podem surgir desse cenário?

A economia de Angola atravessa presentemente uma fase de transformação na qual surge um conjunto de desafios econômicos e sociais. Esses desafios podem e devem ser capitalizados em oportunidades de negócio e desenvolvimento de projetos estruturantes para o país. A queda acentuada do preço do petróleo e, consequentemente, a dificuldade no acesso às divisas para garantir a importação de bens e serviços essenciais ao funcionamento do país estão causando constrangimentos em diversas setores da sociedade angolana. No entanto, acredito que essa situação aparentemente negativa também poderá ser encarada como uma alavanca para a diversificação do seu tecido empresarial. Nesse sentido, continuarão a existir diversas oportunidades de negócio em setores estratégicos, como a Agricultura,  a Pecuária, as Pescas, a Indústria Transformadora, a Educação e Formação Profissional, o Turismo e a  Saúde. O principal pilar para o desenvolvimento de uma sociedade reside no acesso à educação e formação profissional, logo uma aposta inequívoca nessa área poderá criar condições para que os angolanos possam explorar cada vez melhor as oportunidades de investimento que o seu país oferece. O investimento no setor da indústria transformadora, para além de ser uma oportunidade, é, sem dúvida, necessário para aumentar o índice de produção nacional e diminuir a dependência do país face ao exterior. No entanto, é fundamental que, continuamente, sejam criadas condições estruturantes a montante e a jusante da cadeia de valor desse setor que permitam viabilizar novos projetos de investimento. Nesse sentido, tendo em conta o capital endógeno que Angola possui, a prioridade de investimento deverá recair nos setores Agrícola e Pecuário.

Outro país que enfrenta instabilidade econômica é Moçambique. Como estima que essa situação pode afetar os negócios nesse país?

Presentemente, vejo Moçambique como um gigante adormecido que atravessa um momento de crise econômico-financeira e alguma instabilidade político-militar, embora, felizmente, com melhorias significativas nos últimos tempos. As crises são cíclicas e tem se revelado como desafios importantes para o desenvolvimento e a melhoria desses países, logo, à semelhança do que tem acontecido em outros PALOP, Moçambique não será certamente uma exceção. Ainda muito recentemente, o país apresentava consecutivamente as maiores taxas de crescimento econômico do continente africano. Atualmente, constata-se que a crise que atravessa tem sido responsável por adiar diversos investimentos estruturantes, nomeadamente nas áreas da Energia, Mineração, Agricultura e Agroindústria. Para além disso, entre outros fatores que têm prejudicado o surgimento de novos projetos de investimento, destaco a existência de taxas de juro de referência muito elevadas e uma inflação descontrolada. Ainda assim, estamos na presença de uma potência africana que, certamente, irá retomar o seu ciclo de crescimento econômico.

São Tomé e Príncipe, por outro lado, passa por uma fase de estabilidade. Quais as principais oportunidades de investimento nesse mercado?

Existem diversas oportunidades de investimento em São Tomé e Príncipe, não só pela existência de indicadores macroeconômicos positivos que têm conhecido uma tendência crescente ao longo dos últimos anos, mas também essencialmente pela estabilidade política existente. No âmbito da sua atratividade para a captação de investimento estrangeiro, esse país apresenta uma localização privilegiada que constitui um fator competitivo crucial na escolha do local para a implementação de um projeto de investimento, sendo visto como uma plataforma comercial de exportação para outros países do continente africano. Podem-se enumerar oportunidades de negócio concretas no setor primário, essencialmente com o desenvolvimento de projetos de investimento agrícolas, agropecuários e agroindustriais, aqui incluindo uma componente exportadora de fruta tropical e especiarias. Além disso, também considero pertinente analisar oportunidades de investimento no setor do Turismo e da Hotelaria, aproveitando o potencial endógeno que São Tomé e Príncipe apresenta.

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