Entrevistamos Nelson Fernandes, Embaixador da marca OLAE na cidade do Porto

Nelson Fernandes,

Embaixador da marca OLAE na cidade do Porto

 

    A gestão de negócios internacionais consiste em um conjunto de variadas tarefas e, portanto, diversos obstáculos. Marketing, Logística, Finanças e Direito são algumas das temáticas que, em simultâneo, afetam essa área. Não se pode esquecer, no entanto, de temas tão complexos quanto a Política e a Economia Internacionais.

    Para conhecer melhor suas experiências e opiniões sobre a gestão de negócios internacionais, entrevistamos Nelson Fernandes. Embaixador do Observatório Lusófono de Atividades Económicas (OLAE) na cidade do Porto, Fernandes também é Diretor Nacional para Portugal da Indo-Islamic Chamber of Commerce and Industry – IICCI, Comissário da European Economic Chamber of Global Commerce and Industry – EEIGCham e Professor na Universidade Lusófona de Lisboa. 

Na sua opinião, quais são os maiores potenciais empresariais da CPLP?

    O potencial desta grande comunidade é exponencial! E digo isto não só na perspectiva de escala, porque afinal estamos a falar de cerca de 280 milhões de pessoas. Cada um dos países da comunidade tem algo a oferecer e, por sua vez, um conjunto de oportunidades de cooperação, que vão muito além do excelente trabalho efetuado ao nível do ensino da língua portuguesa além fronteiras. Parcerias ao nível do ensino não são novidade, mas continuam a ter um potencial e importância cruciais. Não nos devemos esquecer também das comunidades portuguesas noutros países, com as quais partilhamos uma história, com laços que devem ser mantidos e desenvolvidos, tanto as relações que remontam aos tempos saudosos de Portugal pelos oceanos, como Goa e Macau, por exemplo, como as comunidades falantes em português espalhadas pelo mundo.

 

Por outro lado, quais acredita que são os maiores obstáculos para o crescimento do sector empresarial nessa comunidade?

    Na minha opinião, o maior desafio é a cooperação efetiva entre os membros da CPLP, a criação de um espaço comum, com benefícios efetivos para os Estados membros. Para que a comunidade possa proliferar economicamente, os agentes econômicos, tanto públicos como privados, deverão (ou deveriam) ter um caminho facilitado, enquadrando e de certa forma equiparando a CPLP a organizações internacionais como União Europeia, CEDEAO e Mercosul, por exemplo.

Quais sugestões daria para uma PME interessada em expandir seus negócios para outro país?

    Principalmente, aconselharia a encontrar um parceiro experiente para ajudar no processo. Já muitos dizem hoje em dia que não é caro contratar um profissional qualificado, caro é contratar quem não sabe o que está a fazer! Não há necessidade de descobrir novos caminhos, ir à procura de identificar novos parceiros, quando existem pessoas e organizações que, com a sua experiência, poderão facilitar e aumentar exponencialmente a probabilidade de sucesso dessa iniciativa com uma maior eficiência de recursos. Falando da CPLP, o OLAE é um desses exemplos que, com a experiência que temos e com as relações que construímos, poderá ser um parceiro forte e determinante num processo de internacionalização.

 

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Quais os erros mais comuns cometidos no processo da primeira internacionalização de uma empresa?

    Tudo se traduz numa aprendizagem, não há fórmulas infalíveis. Mas devo concordar que critérios de autorreferência e défices na distribuição (por má distribuição ou por falhas na produção e no estoque) encabeçam frequentemente a lista de razões para o insucesso de algumas iniciativas, até no seio de empresas experientes no panorama global. O célebre caso da Disneyland Paris é exemplo disso. Por outro lado, existem questões que colocaria na base de uma decisão dessas. Porquê internacionalizar? É uma questão de escala? Qual o nível de certeza que temos de encontrar no mercado além fronteiras? Qual o impacto que essa expansão terá na organização? Há capacidade para o aumento de produção? Qual a estratégia de saída prevista para o caso de insucesso? Teríamos material para uma entrevista inteira só com esta pergunta!

Qual a melhor estratégia para adaptar uma estratégia de marketing a uma cultura diferente?

    Cultura é cada vez mais um fator determinante no sucesso ou insucesso das empresas. Na minha opinião, a melhor maneira é ao mesmo tempo a mais simples: encontrar parceiro(s) nativo(s) dessa cultura, trazendo a sua perspectiva para as ponderações estratégicas. Vivemos na era da informação e da tecnologia, mas as pessoas ainda são a base do sistema.

Após anos em crise, a economia de Portugal vive hoje um momento mais estável. Quais fatores acredita que foram fundamentais para essa melhoria?

    Entre a década de 90 e o início do milênio, Portugal passou por uma fase de transformação, influenciada por fatores externos consequentes do processo de integração na União Europeia e adopção da moeda única, mas também por fatores internos, que destruíram grande parte da nossa indústria e nos deixou com um enorme buraco entre as capacidades de uma força laboral pouco flexível ao nível da aplicabilidade de competências e a necessidade de um país a tentar posicionar-se no seio internacional como uma nação de grande potencial, mas que estava a “perder trabalho” por relocalização de multinacionais e das respectivas encomendas. Passos importantes foram dados, mas acredito que a tão afamada crise foi uma das últimas consequências desses tempos turbulentos. A melhor resposta surge quando, após o maior aperto, a presente geração que constitui a massa laboral já se adaptou a um mundo em constante mudança, sem deixar de valorizar as nossas forças!

 

Na sua opinião, quais setores empresariais de Portugal deveriam atrair maior interesse de investidores?

   Neste momento acredito que a melhor estratégia será manter o que já está a resultar. Somos reconhecidos no Turismo, nos Vinhos, na nossa capacidade de Inovação (entre outras áreas). Consolidaria esse trabalho, esse posicionamento. Por outro lado, penso que o passo seguinte são projetos ligados à Indústria 4.0, ao mar e à CPLP.

Quais acredita que são as maiores fragilidades do setor empresarial português?

    Muitos setores ainda têm hábitos “antiquados”. Passamos muito tempo a admirar princípios de gestão aplicados em empresas modelo no panorama global, onde se aplicam, por exemplo, o trabalho por objetivos, a isenção de horário, as avaliações de desempenho e ações de desenvolvimento de carreira (...) e continuamos majoritariamente a gerir as nossas empresas à volta do horário e do ponto. É necessário acreditar no potencial das pessoas, dar poder e responsabilidade, substituir o aumento de horas pelo aumento de produtividade! Ao mesmo tempo, desperdiçamos o nosso espírito inovador e inconformado, o espírito de descoberta que ajudou a moldar o mundo, e perdemos o nosso tempo a replicar hábitos que aumentam a intensidade ao tom do nosso oceano vermelho. Acreditemos mais em nós, com objetivos concretos apoiados no nosso potencial, com parceiros certos a solidificar o nosso crescimento em vez de uma dependência excessiva em apoios financeiros externos.

Na sua opinião, como a economia portuguesa evoluirá nos próximos anos?

Nas palavras de João Vasconcelos, está a decorrer uma 4ª Revolução Industrial. Numa era digital, é impensável considerarmos uma visão de futuro no qual a tecnologia não seja parte integrante e determinante! Machine learning, Big Data e Inteligência Artificial não são cenas de um filme de ficção, mas conceitos e elementos que as empresas e organizações a nível mundial estão cada vez mais a integrar e desenvolver. Pessoalmente já participei em projetos internacionais nessas áreas, mas ainda estamos a raspar a superfície. Todos os dias, limitações ao nível tecnológico são ultrapassadas, tornando o potencial desse setor praticamente incalculável. Acredito que o programa i4.0 é uma medida importantíssima nesse sentido, para que a nossa indústria se eleve, rejuvenesça e se assuma no panorama internacional, traduzindo todo o potencial que sempre tivemos. Por outro lado, e, por favor, não me pergunte qual dos dois o mais importante: o mar. Como diz um grande amigo meu, maior que Portugal só a Groenlândia (risos)! Acredito que devemos regressar ao mar como o nosso principal recurso, por tudo o que pode representar em termos econômicos e energéticos. Todos sabemos que é intenção de Portugal que as Nações Unidas reconheçam e aprovem a proposta de extensão da plataforma continental. Oito anos após a submissão da candidatura, estamos cada vez mais perto do final do processo que, a ter sucesso (acredito que terá), resultará numa quase duplicação do nosso território marítimo, para cerca de 40 vezes a nossa área continental. Acho que basta isto para se assumir de forma inquestionável como o nosso principal motor!

Por fim, qual a sua opinião sobre a evolução econômica e empresarial da CPLP nos próximos anos?

Na minha opinião, é prioritária a criação do espaço econômico comum. Após esse passo, se forem aplicados regulamentos especiais entre os estados membros que fomentem o comércio e o investimento, a evolução econômica será muito, muito positiva. Cada um dos Estados membros tem um conjunto muito atrativo de fatores que torna o CPLP Mix num conjunto de oportunidades potenciais ímpares, por todas as razões que já falamos e mais algumas. Em suma, há muito trabalho a fazer e, felizmente, as relações, os recursos e o know-how também estão bem presentes!

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