Entrevistamos o presidente da Confederação da Construção e do Imobiliário de Língua Oficial Portuguesa

Luís Carvalho Lima,

Presidente da CIMLOP

    Avaliação, investimento, financiamento, habitação social. Diversos são os temas cada vez mais debatidos no âmbito do mercado imobiliário. Esse setor singular influencia e é influenciado pela situação macroeconômica nacional e envolve desde simples cidadãos até grandes multinacionais que desejam expandir suas operações para um país. No caso particular dos países de Língua Portuguesa, o mercado imobiliário também anda de mãos dadas com o Turismo, setor de grande potencial em toda a CPLP.

    Para compreender melhor a situação atual e as perspectivas para o futuro do mercado imobiliário na CPLP, entrevistamos Luís Carvalho Lima, presidente da Confederação da Construção e do Imobiliário de Língua Oficial Portuguesa.

 

Quais são as principais tendências nos investimentos imobiliários entre países de Língua Portuguesa?

A internacionalização é a tendência transversal a todos os países de língua oficial portuguesa, e tem ganhado uma força e importância cada vez maior no desenvolvimento dos mercados imobiliários. O imobiliário é um mercado cuja afirmação passa pela confiança, pela transparência, pela sustentabilidade e também pela crescente procura tanto por cidadãos nacionais, quanto por cidadãos estrangeiros. Como é natural, tudo isso implica um quadro jurídico integrado, com existência de registros e cadastros prediais, maior transparência e eficiência nos serviços prestados, mais políticas integradas, melhores critérios de avaliação imobiliária, mais financiamento e inclusão de habitação social como pilar do setor imobiliário, assim como pela aposta na qualidade e formação profissional de agentes que atuam neste setor. Em um quadro demográfico em que a maioria da humanidade já vive em cidades, as perspectivas para o setor imobiliário são enormes e passam pelo próprio conceito de cidade, pela reinvenção das cidades como lugares onde seja bom viver e, principalmente, onde seja bom viver com os outros – o grande desafio econômico dos nossos dias.

Quais as principais semelhanças entre os mercados imobiliários dos países de Língua Portuguesa?

O mercado imobiliário dos países de língua oficial portuguesa é muito heterogêneo e apresenta muitas diferenças nos diferentes países, que se prendem, essencialmente, com o nível de maturidade dos mercados. Há mercados mais desenvolvidos e estabelecidos, como o português ou brasileiro, e há outros que se encontram em processo de desenvolvimento, como o angolano.  Nesses casos, o fato de haver plataformas como a CIMLOP, que incentiva a parceria e a troca de informações e know-how entre os países, é muito benéfica, uma vez que se privilegia a existência de sinergias como elemento importante para o êxito de projetos que venham a se afirmar nesse espaço lusófono que se estende pelos cinco continentes. Quando falo de parcerias, estou a pensar, por exemplo, no contributo indispensável de quem vive e conhece o espaço onde possam estar a nascer potencialidades de investimento, ou da necessidade de partir para a internacionalização, onde quer que ela possa ocorrer, com o respeito e o conhecimento necessários sobre os países de destino. Recordo que muitos empreendimentos falharam pelo simples fato de se ignorar as tradições e os hábitos culturais de países onde determinados projetos foram lançados. Essa é uma lição que aprendemos com facilidade na CIMLOP, pelo contato entre empresários de vários países e por um contato que acontece em países muito diferentes.

Quais os desafios mais comuns para o investimento imobiliário nesses mercados?

Como já referi, um dos maiores desafios que surgem no panorama do mercado imobiliário é o da internacionalização. Na CIMLOP, as parcerias tem sido privilegiadas nesse processo por meio da existência de reuniões bianuais e rodadas de negócios que tem tido bastante sucesso e que são uma experiência muito positiva que facilita o processo de compreensão e aprendizagem mútua, sem a qual o processo de internacionalização é muito difícil. Para serem bem sucedidas, as oportunidades de negócio no campo da internacionalização precisam dessa transparência e segurança que parcerias locais podem oferecer a eventuais projetos de internacionalização que se cruzem no vasto mercado da lusofonia.

 

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Portugal vive hoje um momento de crescimento do mercado imobiliário. Quais os principais motivos desse cenário?

Desde o final de 2013, o setor imobiliário português tem vindo a verificar um cenário de crescimento, sobretudo depois da implementação de programas de captação de investimento estrangeiro, como o programa de autorização de residência para atividades de investimento (Vistos Gold) ou o Regime Fiscal para residentes não habituais. Desde aí que o imobiliário português tem assistido a um aumento da procura por parte de cidadãos estrangeiros, o que acabou por contaminar positivamente o mercado interno, fazendo com que o número de transações imobiliárias seja crescente. Agora, com um mercado imobiliário mais do que estabelecido, esse é um dos setores que mais contribuem para o desenvolvimento econômico do país. Os principais motivos dessa retoma prendem-se com a transparência e a segurança do mercado português. Quanto mais transparente e seguro for o imobiliário, mais investimento conseguirá captar. Depois, em Portugal o imobiliário continua a ter potencial de valorização e existem três vértices que ainda têm um grande potencial de crescimento e desenvolvimento: a reabilitação urbana, o arrendamento urbano e o turismo residencial, que, aliados, farão do imobiliário um setor cada vez mais forte.

Como acredita que o mercado imobiliário português evoluirá nos próximos anos?

O mercado imobiliário português tem todas as condições para evoluir e se manter um dos setores que mais contribuem para a economia do país. No entanto, neste momento e nas principais cidades está a existir um problema de ausência de estoque imobiliário, sendo necessário que se volte à construção nova em locais onde haja procura para tal.

Algumas das maiores economias da CPLP passam hoje por um momento de dificuldades. Como esse cenário está afetando o mercado imobiliário nesses países?

As economias são cíclicas. Recordo que há poucos anos o mercado imobiliário português encontrava-se numa situação problemática, de quase estagnação, enquanto mercados como o angolano e o brasileiro apresentavam-se altamente pujantes. Hoje, a situação inverteu-se, mas a economia é assim mesmo. O mercado imobiliário é um mercado cujo investimento depende muito da estabilidade, segurança e confiança que oferece aos seus potenciais investidores. Claro que em países que atravessam problemas econômicos, sociais e políticos, o mercado imobiliário é diretamente influenciado de forma negativa, uma vez que há dificuldades em conseguir criar confiança no mercado. É importante que cada país consiga identificar os erros que cometeu para evitar repeti-los ou que olhe para os exemplos que tem à sua volta de forma a assimilar a experiência de outros países, replicando apenas as medidas positivas para um desenvolvimento sustentável do mercado imobiliário.

Quais particularidades do setor imobiliário dos países africanos de Língua Portuguesa mais afetam o investimento estrangeiro?

As realidades dos países são muito diferentes entre si, mas apontaria o excesso de burocracia como o maior problema para o recebimento de investimento estrangeiro nesses países. Muitas vezes, potenciais investidores acabam por desistir dos seus investimentos devido aos constantes entraves burocráticos que encontram.

Diante de um novo Governo nacional, qual a situação atual do mercado imobiliário em Cabo Verde?

Cabo Verde é o país africano de língua oficial portuguesa com maior nível de desenvolvimento e de estabilidade econômica e política. No entanto, há desafios que continuam a surgir, tais como a abertura desse mercado ao investimento estrangeiro, que é essencial para a criação de dinâmicas econômicas, até porque o Governo tem pouca margem para o investimento público, o que faz com que o investimento privado seja crucial. Com isso esse assume o papel de motor de arranque para o desenvolvimento econômico do país, e por essa via, para o desenvolvimento de um mercado imobiliário, que neste momento está quase exclusivamente ligado ao mercado turístico.

Quais conselhos ofereceria a um empreendedor interessado em investir no mercado imobiliário de Angola?

Um dos principais conselhos para quem investe num outro país que não o seu é que é necessário ter consciência de que os mercados divergem entre si, e que o investimento deve ser sempre adequado à realidade do país de destino. O caso angolano é também esse. É necessário haver um estudo profundo do mercado e das suas necessidades para lhes dar resposta da forma mais adequada.

Por fim, que principais tendências acredita que devemos esperar para os mercado imobiliários de Língua Portuguesa?

Creio que o investimento no Turismo Residencial será um dos fenômenos a que se começará a assistir nos diferentes mercados, sendo que já se verifica em Portugal. O reconhecimento do potencial turístico dos países de língua oficial portuguesa fará com que esse seja um mercado na mira de potenciais investidores, sobretudo porque ainda não há, na generalidade dos países, oferta imobiliária que esteja adequada a essa nova procura.

 

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