Entrevistamos Prof. José Paulo Oliveira, presidente do Observatório Lusófono de Atividades Económicas

Prof. José Paulo Oliveira,

Presidente do Observatório Lusófono de Atividades Económicas (OLAE)

 

    Exportações, importações, investimentos internacionais, candidaturas a financiamentos, formação e desenvolvimento de planos de negócios. Todas essas atividades empresariais consistem nas áreas da consultoria prestada pelo Observatório Lusófono de Atividades Económicas (OLAE) para empresas com negócios nos países de Língua Portuguesa. Por meio de uma vasta rede de contatos e parceiros, aliada a anos de experiência de investigação, esse centro elabora hoje algumas das mais precisas previsões para as economias da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para conhecer mais sobre suas opiniões e experiências, entrevistamos o presidente do OLAE, Prof. José Paulo Oliveira.

 

Na sua opinião, quais são os maiores potenciais econômicos da CPLP?

    A CPLP tem alguns fatores de sucesso que favorecem o nosso futuro comum. Em primeiro lugar, o mar que nos une. Os nossos países possuem zonas econômicas marítimas impressionantes, com riqueza, biodiversidade e potencial absolutamente extraordinários. Essa é uma mais-valia que podemos aproveitar e contamos com recursos humanos cada vez mais qualificados para trabalharem nas diversas dimensões dessa oportunidade. Em segundo lugar, a constatação óbvia que quase todos os países membros da CPLP são produtores de petróleo ou gás natural, com os ganhos econômicos que continuam a gerar, mesmo na conjuntura atual. No entanto, julgamos que a maior oportunidade reside no aproveitamento das potencialidades de cooperação e comércio entre países da CPLP e destes com países terceiros. Notemos que esse potencial econômico não se esgota nos países membros da CPLP em si mesmos, mas abrange todas as vastas áreas de integração regional em que esses países participam e que pode ser aproveitado de forma mais profícua do que tem acontecido até agora. A nossa língua comum tem um potencial de aproveitamento e constitui uma mais-valia e privilégio para os nossos países, pela vantagem que confere aos falantes de português em negócios internacionais.

 

Por outro lado, quais acredita que são os maiores obstáculos para o desenvolvimento nessa comunidade?

    Em primeiro lugar, temos de reconhecer que a maior parte dos cidadãos dos países membros da CPLP tem dificuldade em verem-se a si mesmos como cidadãos da CPLP, o que constitui um obstáculo principal. Por outro lado, sentimos alguma preferência das empresas e empresários por fazerem negócios com os espaços de integração económica regional dos quais os seus países participam, como a União Europeia ou o Mercosul, face a investirem no espaço da CPLP. Notamos também essa preferência nas ações e iniciativas concretas dos governos dos países, o que não contribui para o reforço do papel da nossa comunidade.

Angola enfrenta hoje fortes efeitos da queda do preço do Petróleo. Como classifica a situação atual da economia desse país?

    A conjuntura econômica angolana é altamente preocupante, agudizando problemas sociais e desestruturando o muito frágil tecido econômico e as PME do país. Consideramos que o maior risco da crise atual é a eventualidade de quebra de estrutura que afetará o potencial de crescimento de longo prazo, pois há muitos negócios sustentáveis que se estão a perder devido ao fracasso monetário em que o país vive. Essas tensões tornam-se críticas em função do período de transição política em que o país já entrou e dos riscos que comporta. No entanto, acreditamos muito no potencial e riqueza da economia angolana, que terá de saber diversificar-se, com forte aposta na agricultura, agroindústria, avicultura e reforço do grande investimento feito na aquicultura nos últimos anos. Em resumo, Angola terá de mudar o modelo econômico em que tem vivido nos últimos anos e apostar na produção interna em setores em que existem excelentes condições no país.

Leia também: Golden Visa: a porta de entrada na Europa, por Nuno Cruz

Na sua opinião, como a economia angolana evoluirá nos próximos anos?

    Estamos convencidos de que a crise ainda se prolongará e aprofundará, em função de acreditarmos que, a menos que haja alguma séria perturbação da oferta, o preço do petróleo se irá estabilizar em valores entre os 40 e 50 dólares por barril, o que é manifestamente insuficiente para as necessidades da economia angolana. Neste contexto, as alterações estruturais da economia anunciam-se penosas. Apesar dessa conjuntura, existem oportunidades para o reforço das exportações, em especial para a República Democrática do Congo, a Zâmbia e mesmo a Namíbia, que estamos certos de que as empresas angolanas não deixarão de aproveitar e que mudarão a composição do PIB de Angola na próxima década. A necessidade de investimento na produção local para substituir importações, a aposta nos setores atrás descritos em que o país tem grande potencial e o reforço das exportações para mercados externos que lhe são próximos trará a recuperação da economia de Angola. Acreditamos que, após alguns anos muito difíceis, a próxima década será bem favorável para o país, com o regresso ao rápido crescimento, mas agora de forma diversificada e sustentável.

Moçambique, por sua vez, vive o menor ritmo de crescimento econômico dos últimos anos. Quais fatores acredita que levaram o país a esse cenário?

    Nós alertamos, há já vários anos, para o risco que a política monetária seguida em Moçambique constituía para o crescimento econômico no futuro. Neste momento, o país está a pagar o preço de uma sobrevalorização cambial propositada do Metical, que aconteceu fundamentalmente em resultado das chamadas “crises do pão” e possuía dois objetivos. Primeiro, reduzir a inflação importada. Segundo, o estabelecimento de objetivos para a cotação da moeda nos fechos dos exercícios econômicos para permitir que as empresas multinacionais a operarem no país apresentassem às suas casas-mães melhores resultados expressos nas moedas fortes. Essa política criou uma diferença entre a cotação oficial da moeda e o seu valor fundamental, criando a necessidade de enormes restrições à circulação de capitais e prejudicando a capacidade de transferir dinheiro para o exterior, o que conduziu a dificuldades de funcionamento para a economia e até restrições na importação de bens de equipamento fundamentais para a realização de grandes investimentos no país. O país tem também sofrido um fenómeno econômico conhecido como a “doença holandesa”. Claro que o escândalo EMATUM e a desconfiança com que os investidores estrangeiros olham hoje para o país retiraram credibilidade da governação. A instabilidade política e os riscos de conflito interno também são pesados. No entanto, estamos convencidos de que foi a política monetária que conduziu o país à crise conjuntural em que se encontra.

Diante dessa situação, qual a sua previsão para o futuro da economia moçambicana?

    Apesar de tudo o que atrás foi exposto, Moçambique continua a apresentar perspectivas de futuro com muito rápido crescimento econômico. Acreditamos que em cerca de dois ou três anos a economia moçambicana estará a crescer a dois dígitos e será uma das estrelas do crescimento econômico mundial e um fenômeno mesmo no contexto africano. A exploração de recursos naturais irá dar um contributo essencial para esse crescimento econômico. Além disso, o potencial da agricultura, em especial num contexto previsível de valorização dos preços mundiais dos produtos agrícolas, assim como a atratividade de investimentos no setor agroindustrial, constituirá potencialmente a base para a economia nas próximas décadas.

Após anos enfrentando uma grave crise, a economia de Portugal apresenta hoje sinais de recuperação. Como qualifica a situação econômica atual do país?

    Bom, na verdade os problemas estruturais da economia portuguesa continuam exatamente iguais ao que tínhamos cinco anos atrás, com o agravante de hoje termos uma dívida pública mais pesada que resultou do completo fracasso da política econômica de austeridade implementada pelo anterior governo. Essa realidade é agravada pela existência de uma dívida privada altíssima, o que se traduz num efeito cumulativo da dívida pública e privada que deixam a situação praticamente insustentável a médio e longo prazo. De qualquer modo, a alteração de políticas e de opções em relação à sociedade portuguesa, defendendo os mais pobres, ao contrário do que acontecia no passado recente, criou um ambiente geral mais favorável na sociedade portuguesa. A governação de má memória, que vigorava ainda um ano atrás, incluiu opções por políticas econômicas que destruíram valor e levaram à falência de milhares de empresas, algumas das quais sem condições de funcionamento, mas muitas economicamente viáveis apesar de possuírem estruturas de capital deficientes e dependência de crédito bancário. Esse efeito contagiou também de forma terrível o setor bancário e agudizou os problemas que ainda não estão resolvidos, dos quais as situações do BES/Novobanco e da CGD são exemplos maiores. O momento atual, protagonizado pela dupla Marcelo-Costa, desanuviou o ambiente geral de crispação no país, restaurou a estabilidade social e contribuiu decisivamente para a confiança no futuro do país e consequentemente para a existência de expectativas positivas e para o relançamento do consumo interno, o que dá também boas indicações para o investimento. De qualquer modo, a resolução dos problemas estruturais de Portugal implica uma escala de decisão europeia e nesse campo as indicações dadas por Bruxelas deixam muito a desejar.

Leia também: A economia de Portugal hoje

Na sua opinião, como economia portuguesa evoluirá nos próximos anos?

    O futuro da economia portuguesa estará ligado à evolução europeia, ao futuro do Euro, que ainda é incerto, bem como à capacidade dos protagonistas para evitar erros que poderão destruir a União. Sanções a Portugal, em especial nas condições e fundamentos em que aconteceriam, seriam inaceitáveis e demonstraríam que as lideranças atuais não tem projeto nenhum de construção comum e estão obcecadas e cegas por opções ideológicas e interesses nacionais particulares de curto prazo. No entanto, na economia portuguesa existem setores altamente inovadores, produtores de tecnologia, com elevado valor acrescentado e que estão a saber melhorar e crescer mesmo em tempos desfavoráveis, ganhando mercados externos e obtendo reconhecimento pela qualidade do seu trabalho.  O setor do turismo irá muito provavelmente ganhar importância, criando cada vez mais emprego e contribuindo para o investimento, sendo o setor mais competitivo da economia portuguesa. A instabilidade internacional e a insegurança em vários países competidores contribuirão para o reforço desta atividade nos próximos anos. No entanto, a melhoria da qualidade do serviço, a excelência da oferta e as condições existentes no país são alicerces que mudaram nos últimos anos o padrão da oferta turística.

Como acredita que a economia portuguesa será afetada pela provável saída do Reino Unido da União Europeia?

    O problema principal parece-nos residir no risco financeiro associado a um aumento das taxas de juro, em especial das taxas a que o Estado se consegue financiar. O sistema financeiro português é também objeto das nossas maiores preocupações, pois há fortes riscos de que a instabilidade do eurosistema e a fragilidade dos bancos portugueses se traduzam numa crise financeira aguda em curto prazo. Felizmente, não estamos sozinhos nesse problema. A banca italiana ou as reconhecidas dificuldades do Deutsche Bank, dentre outros casos, obrigarão as autoridades monetárias europeias a tomar resoluções muito em breve. Apesar das posições extremistas de alguns governantes de países importantes, o BCE tem sido sensível ao problema e acreditamos que poderá ainda ser evitada uma catástrofe financeira na Europa. Por outro lado, o Brexit devia alertar a União Europeia para um vasto conjunto de políticas e opções erradas, que têm sido claramente rejeitadas pelas populações europeias, marcando um momento de viragem na construção europeia, com o regresso a uma Europa mais solidária em que os interesses nacionais de curto prazo não destruam a visão de longo prazo.

Leia também: Entrevistamos Mário Costa, presidente da União de Exportadores da CPLP

O OLAE possui grande experiência na consultoria para pedidos de financiamento. Qual a sua sugestão para empreendedores em busca desse tipo de apoio na CPLP?

    Com a difícil conjuntura econômica em que se encontra a maioria dos países membros da CPLP, acreditamos que a solução mais vantajosa decorre da oportunidade de acesso aos fundos das instituições financeiras multilaterais internacionais, como o Banco Africano de Desenvolvimento, o Banco Mundial ou o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Apesar de muitos dos projetos envolverem uma complexidade técnica, existem organizações como o OLAE, com vasta experiência, que poderão ajudar na preparação de projetos estruturantes. Por outro lado, para pequenos projetos consideramos que as soluções das instituições microfinanceiras oferecem muitas vezes as melhores soluções para quem não tem meios de obter fundos na banca comercial tradicional. Acompanhamos também com o maior interesse o trabalho do Banco Islâmico de Desenvolvimento e todo o conceito de operação da banca islâmica parece-nos não apenas altamente vantajoso para os empreendedores, mas também uma metodologia justa do ponto de vista humano.

Qual o diferencial do OLAE, enquanto centro de investigação, no âmbito da consultoria empresarial?

    Essa é uma questão fundamental. A investigação macroeconômica que fazemos permite-nos compreender o que vai se passar nos países e aconselhar da melhor forma as empresas que beneficiam do nosso apoio. Um bom exemplo disso está no alerta que nos últimos anos fizemos às empresas que acompanhamos para não obterem empréstimos em moeda forte para realizar investimentos em Angola ou Moçambique, devido ao risco cambial, pois a nossa investigação previa claramente um elevado risco de desvalorização do Metical e do Kwanza, o que de fato se verificou. Esta vertente acabou por se traduzir num benefício imenso para as empresas que trabalharam conosco, que evitaram os erros trágicos que muitas outras empresas infelizmente cometeram. Aliás, neste momento estamos a finalizar um estudo, que será divulgado no início do mês de Setembro, em que alertaremos para uma realidade semelhante que se verifica noutro país da CPLP e que poderá criar uma crise financeira nos próximos tempos.

Por fim, qual a sua opinião sobre a evolução econômica e empresarial da CPLP nos próximos anos?

    Apesar do mau momento atual, estamos otimistas em relação ao futuro.  Angola e Moçambique são riquíssimos em recursos naturais, sendo economias de muito elevado potencial. Timor-Leste, Guiné-Bissau e Guiné Equatorial tem também enormes possibilidades e recursos. Portugal e Cabo Verde dispõem de recursos humanos muito bem preparados e capacitados para as necessidades das suas economias. São Tomé e Príncipe tem uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo extremamente interessante e que irá dar grandes frutos. O Brasil continua a ser um país com setores de ponta a nível mundial e regiões altamente produtivas e com alto valor acrescentado, que conseguirão resistir a todos os problemas políticos e econômicos de curto prazo.  Portanto, acreditamos que existem razões para querer investir e trabalhar nos países da CPLP.

PUBLICIDADE

 

Acompanhe a Mercados & Estratégias