Exportação e Importação de vinhos portugueses: entrevistamos Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal

 

Jorge Monteiro,

Presidente da ViniPortugal

 

    O setor de vinhos é um dos mais bem-sucedidos e famosos de Portugal. Conhecidos mundialmente pela sua qualidade e diversidade, os vinhos portugueses atraem a atenção de inúmeros estrangeiros interessados em investir na sua importação. Não à toa, apesar da pequena dimensão geográfica, Portugal consiste no 9º maior comerciante e no 12º maior produtor de vinhos do mundo.

    Com o objetivo de entender melhor sobre o potencial dos vinhos portugueses, a Mercados & Estratégias entrevistou Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a associação de profissionais do setor vitivinícola de Portugal.

 

 

Muitos empresários estrangeiros tem interesse em investir na importação de vinhos portugueses por causa da diferença do valor de uma garrafa em Portugal e, por exemplo, em Angola ou no Brasil. Quais os motivos para essa diferença de preços?

Principalmente quando falamos de Angola e Brasil, há três razões fortes para essa diferença. Primeiro, as taxas e direitos aduaneiros para a entrada de vinhos nesses mercados elevam muito os preços até a mercadoria chegar ao importador. Segundo, os dois países não são relativamente grandes mercados de consumo de vinho. O Brasil, por exemplo, consiste em um mercado de cerca de 30 milhões de consumidores desse produto uma vez que muitos brasileiros ingerem menos de dois litros por ano. Como consequência, os importadores não conseguem beneficiar de um efeito de escala para baixar os preços. Terceiro, o valor final também é muito elevado por causa dos altos gastos com a logística para distribuir os vinhos dos portos para as cidades onde estão os consumidores. Por causa desses três motivos, uma garrafa de vinho chega à prateleira de um supermercado até oito vezes mais cara no Brasil e até seis vezes mais cara em Angola. Ou seja, não é o preço de saída de Portugal que é diferente, o valor final depende mais de fatores específicos dos mercados de destino do vinho.

Além dessa diferença de preços, quais são os principais motivos para um empresário de outro país de Língua Portuguesa investir na importação de vinhos de Portugal?

Há duas grandes vantagens para trabalhar com o comércio de vinhos de Portugal para outros países de Língua Portuguesa. Primeiro, o idioma em comum e a afinidade cultural entre esses países facilitam as negociações. Segundo, o verdadeiro apreciador de vinho, que gosta sempre de experimentar coisas novas e combinar o vinho de acordo com a gastronomia, encontra uma oferta de vinhos portugueses muito diversificada. Como Portugal preservou as castas nativas e possui uma riqueza genética muito grande, os vinhos portugueses são muito diversos e, portanto, consistem em uma boa alternativa. Obviamente, não podemos dizer que os vinhos de Portugal são melhores que os outros, mas são feitos com a mesma qualidade que na França, na Argentina, no Chile, nos Estados Unidos e na Austrália e proporcionam experiências diferentes.

Por outro lado, quais os principais desafios para o investimento nesse negócio?

Eu diria que há apenas um desafio que é específico aos vinhos portugueses: é preciso grande conhecimento. Para investir com sucesso nesse setor, é necessário conhecer bem as regiões produtoras de Portugal e ter uma boa cultura de vinhos para, por exemplo, saber por que o produto de uma região é mais apreciado do que o de outra. Os demais desafios são idênticos a todos os vinhos independente do país de origem. Para trabalhar principalmente com a importação de vinhos para Angola ou Brasil é preciso conhecer muito bem o funcionamento do mercado local, saber quais são as barreiras aduaneiras e administrativas e ter conhecimento de todo o processo de desembaraço e distribuição do produto de forma a reduzir o tempo entre a saída da adega no país de origem e a chegada ao consumidor final.

 

O Brasil consiste em um dos principais mercados para o setor vitivinícola de Portugal. Qual a situação atual das exportações de vinhos portugueses para esse mercado?

O período de desaceleração da economia junto com a desvalorização do real e a inflação está levando o consumidor brasileiro a comprar produtos mais acessíveis. Dessa forma, os dados mais recentes revelam que os vinhos portugueses estão gerando praticamente o mesmo retorno de antes pois estamos vendendo mais vinho a preços mais baratos. Sabemos que o país que está ganhando mais com essa situação é o Chile, que está mais perto e tem preços mais competitivos. Por outro lado, os países que estão perdendo mais com a mudança do consumidor são a Austrália, a Nova Zelândia, a África do Sul e os Estados Unidos, que perderam cerca de 50% do valor de mercado no Brasil. Em menor escala, a França, a Itália e a Argentina também foram prejudicadas. Atualmente, o Brasil consiste no nono maior destino das exportações de vinhos portugueses. Por outro lado, Portugal é o terceiro país que mais exporta vinhos para o Brasil, atrás apenas de Chile e Argentina, que obviamente beneficiam da proximidade geográfica e de vantagens aduaneiras no âmbito do Mercosul. Uma outra informação relevante sobre o mercado brasileiro de vinhos é que o canal de compras online está crescendo bastante uma vez que permite ao consumidor encontrar opções que não estão nos mercados.

Angola é outro mercado considerado prioritário pela ViniPortugal. Qual a sua análise sobre o cenário atual desse mercado para os vinhos portugueses?

O consumidor angolano continua a procurar vinho e tem preferência pelo português. Portugal é o maior exportador de vinhos para Angola, representando cerca de 80% do mercado local. A questão principal neste momento é que as empresas de Portugal exportaram a crédito, para explicar de forma simples, mas atingiram seu limite de capacidade financeira por causa da dificuldade de saída de divisas em Angola, gerando hoje uma falta de vinho nesse mercado. Desse modo, estimo que fecharemos 2016 com um valor total de cerca de € 20 milhões exportados de vinhos para Angola,  enquanto que em 2014 registramos € 90 milhões.  Mesmo assim, estou convencido de que a economia angolana conseguirá se estabilizar em breve, embora provavelmente não retomará a dinâmica que teve há alguns anos. Ressalto que, apesar das dificuldades, Angola continua sendo considerada prioritária para nós, portanto aproveitamos este momento para apostar na formação dos profissionais.

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Macau também é considerado um importante mercado para o setor vitivinícola português. Como é a recepção dos vinhos portugueses nesse destino?

Macau hoje é um mercado que não tem nada a ver com o que víamos há 17 anos, quando houve a transferência de soberania da região. Até 1999, tratava-se de um mercado muito fechado e muito exclusivo dos vinhos portugueses. Desde então, por outro lado, a economia da região cresceu de uma forma muito acelerada com base nas indústrias do jogo e do turismo. Atualmente, é um mercado mais voltado para os vinhos de preços mais baixos e cerca de 70% do vinho consumido é australiano. No caso dos produtos de Portugal, destacam-se em Macau vinhos das gamas média e alta, principalmente para a venda em restaurantes, mas os portugueses estão hoje perdendo  parcela de mercado. Na minha opinião, para Portugal recuperar força nessa região é necessário agir de acordo com uma mudança de perfil do consumidor e promover os vinhos portugueses com base em um diferencial de qualidade e não de preços.

 

Apesar de ser um mercado grande e com afinidade cultural com Portugal, Moçambique não é considerado um destino prioritário pela ViniPortugal. Quais os motivos dessa situação?

Moçambique é um mercado para o qual nós olhamos, mas entendemos que ainda não está no ponto para ser trabalhado por dois motivos principais. Primeiro, é um mercado que ainda consome bastante vinho a granel. Segundo, é uma economia onde a presença das empresas do setor vitivinícola ainda é muito pequena.

Como as exportações de vinhos portugueses para outros mercados de Língua Portuguesa são afetadas por diferenças culturais entre esses países?

Todos os países de Língua Portuguesa são bons mercados consumidores de vinhos principalmente devido a uma proximidade histórica e cultural com Portugal. Mesmo assim, acredito que as categorias de vinho que esses países consomem tem mais a ver com o poder de compra do que com uma questão cultural. Obviamente o consumo é afetado pela existência de regiões com culturas religiosas contrárias ao consumo de bebidas alcoólicas, mas esse fator não gera efeitos de grande dimensão.

Considerando apenas os mercados prioritários de Língua Portuguesa, quais categorias de vinho são mais exportadas por Portugal?

Do ponto de vista dos níveis de preço, Angola é um mercado que consome todas as categorias de vinho português. Em termos regionais, os vinhos mais exportados para Angola são os do Alentejo, seguidos dos provenientes do Douro. Além disso, o mercado angolano é claramente consumidor de vinho tinto. O Brasil também importa mais os vinhos do Alentejo e também prefere o tinto, mas o consumo do branco está crescendo. Por outro lado, o mercado brasileiro praticamente não importa vinho a granel uma vez que há produção local, portanto destacam-se mais os vinhos engarrafados com denominação de origem.

 

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Na sua opinião, como o setor vitivinícola português evoluirá nos próximos anos?

As exportações de vinhos portugueses estão crescendo há algum tempo. Trata-se de um pequeno importador, mas com um consumo muito forte, portanto a produção que sobra para a exportação não é muito grande. Mesmo assim, exportamos hoje cerca de 45% da produção em termos de volume e 55% do ponto de vista do valor. A taxa média de crescimento anual do setor tem sido modesta mas consistente entre 2% e 4%. Em termos globais, nunca seremos a França, os Estados Unidos ou o Chile uma vez que temos um consumo interno muito alto, possuímos pequenas propriedades e trabalhamos com pequenas séries de produção. Por outro lado, não queremos investir na questão da quantidade, mas na produção de vinhos distintivos e, para tal, apostamos muito na formação. Queremos crescer nos nossos mercados prioritários de forma paulatina e manter o crescimento do setor consistente entre 2% e 4% por ano sustentado no ganho de preço. Mantendo-se essa tendência, provavelmente daqui a dez anos teremos os melhores vinhos exportados e o mercado deverá importar para satisfazer o consumo interno.

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Por fim, como acredita que evoluirão as exportações de vinhos portugueses especificamente para os demais países de Língua Portuguesa?

Depende muito da economia e da estabilidade desses países. Eu diria que se, por exemplo, Moçambique crescer demograficamente, haverá uma grande subida do consumo interno. A afinidade cultural e a propensão ao consumo existem, portando vai depender mais de como as economias nacionais evoluírem para permitir ao consumidor um maior poder de compra. A atual situação de dificuldades vivida em Angola está afetando o setor consideravelmente, mas estamos conseguindo compensar com o crescimento em outros mercados: no ano passado nossas exportações para o mercado angolano caíram € 24 milhões, mas conseguimos aumentar em € 30 milhões nossas vendas para outros países. Mesmo assim, retomaremos o crescimento das exportações para Angola assim que essa turbulência atual for ultrapassada. Sem grande certeza, eu apostaria que, dentre os países da CPLP, Cabo Verde deverá viver uma maior entrada de vinhos de melhor qualidade por causa da estabilidade política e do desenvolvimento econômico do país, assim como pela proximidade geográfica com Portugal. Destaco que o país tem um consumo per capita muito alto uma vez que possui apenas 200 mil consumidores de vinho que ingerem por ano quase a mesma quantidade do que os 11 milhões de consumidores residentes em Moçambique. Mesmo assim, já há operadores portugueses instalados no mercado cabo-verdiano. Para um novo investidor, é necessário primeiro definir um posicionamento e encontrar um nicho de consumidores com um bom poder de compra e que queiram experimentar novas opções de vinhos portugueses. Outro mercado interessante é São Tomé e Príncipe, que também beneficia de uma proximidade geográfica com Portugal e paga valores melhores do que Cabo Verde. A Guiné-Bissau, ainda, também tem algum potencial porque consome bastante.

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