Negócios em Moçambique: entrevistamos o presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique

 

João Navega,

Presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique

 

Moçambique. Por um lado, um país que vive hoje um cenário de insegurança interna e instabilidade política que atrapalham a entrada de investimentos. Por outro, um mercado com enormes reservas de carvão e gás natural, excelente posicionamento geográfico, crescente disponibilidade de mão-de-obra qualificada e grande potencial em setores como a agricultura e o turismo. Para conhecer mais sobre os atrativos, os obstáculos e a evolução do mercado moçambicano, entrevistamos João Navega, presidente da Câmara de Comércio Portugal Moçambique.

 

Como a economia de Moçambique evoluiu nos últimos anos?

Desde a independência de Moçambique, em 1975, o crescimento do PIB desse país foi sempre superior a 5% ao ano. Desde a década de 1980, a política econômica do país deslocou-se de uma orientação socialista para uma gestão de maior promoção do setor privado e da atração de investimento estrangeiro. A partir desse momento, muitos grupos empresariais passaram a investir em diversos setores produtivos do país. O Governo de Moçambique passou a apostar em megaprojetos focados na exploração de recursos e no desenvolvimento das infraestruturas do país e que tinham uma grande vocação de rentabilidade. Além disso, teve início a noção de que o país tinha que se desenvolver por meio de grandes corredores que ligavam o Oceano Índico ao interior de Moçambique e a países vizinhos que não possuem acesso ao mar. Eu destaco, por exemplo, a Zâmbia, que é um dos maiores produtores de cobre do mundo, mas não possui costa marítima. Nesse caso, há o Corredor de Nacala, que permite que o cobre seja exportado para, principalmente, a China por meio de Moçambique. Um outro importante acontecimento foi a descoberta, no final da década de 1990, da enorme dimensão das reservas de carvão em Moatize. Por fim, no início dos anos 2000 a economia foi ainda mais estimulada pela descoberta de uma das maiores reservas de gás natural do mundo.

Quais são os principais atrativos ao investimento estrangeiro oferecidos hoje por Moçambique?

Primeiro, Moçambique hoje conta com uma população de cerca de 22 milhões de habitantes, mas há uma explosão demográfica que pode alavancar esse número para mais de 30 milhões em poucos anos. Esse crescimento deverá estimular o crescimento econômico tanto pelo aumento de mão-de-obra quanto pela subida do consumo. Segundo, como já referido, o país possui enormes reservas de recursos, com destaque para o gás natural e o carvão. Além disso, trata-se de um mercado que possui muita terra arável e com uma fertilidade tão grande que permite mais de duas produções por ano em muitas culturas. Por fim, dentre muitos outros atrativos ao investimento, Moçambique ainda conta com uma geografia privilegiada por ser banhado não apenas pelo Oceano Índico como pelo Rio Zambeze, um dos principais da África.

Por outro lado, quais os principais obstáculos enfrentados por empresas em expansão para o mercado moçambicano?

Um dos primeiros fatores que uma empresa estrangeira analisa antes de investir é o risco país. Infelizmente, esse aspecto piorou em Moçambique nos últimos dois anos devido a uma instabilidade política por divergências existentes entre o Governo e a oposição. Esse risco não existia há poucos anos. Não é possível essa situação atual em que a Renamo, partido de oposição, provoque distúrbios e até conflitos armados com as tropas do Exército. Outro fator que consiste em um obstáculo para investidores estrangeiros é a falta de segurança interna. Hoje em dia, há em Moçambique alguns grupos organizados que raptam pessoas, principalmente empresários ou seus familiares, para obterem resgates de grande valor. O que é ainda mais lamentável é o envolvimento de patamares elevados da polícia nessa criminalidade, como já foi reconhecido na Assembleia da República do país. Em termos empresariais e econômicos, esses dois fatores geram uma grande perturbação em Moçambique.

Qual a postura adotada pelo Governo de Moçambique diante de investidores estrangeiros?

Moçambique adota uma postura de muita abertura ao investimento estrangeiro. Eu destaco que o Governo não estabelece nenhuma imposição de que uma empresa deve ter um sócio moçambicano para ser constituída no país, como ocorre em outros mercados africanos. No setor da segurança privada, por exemplo, há algumas empresas estrangeiras que reúnem um grande número de funcionários com alto treinamento e grande armamento. Mesmo nesse caso, não é obrigatória a existência de capital moçambicano, porque há um acompanhamento rigoroso por parte do Ministério do Interior.

Qual setor produtivo moçambicano deveria, na sua opinião, atrair maior atenção de investidores estrangeiros?

A agroindústria. Em Moçambique há muita terra fértil, água abundante e um clima excelente para a agricultura. Além disso, a população do país está em uma fase de explosão demográfica, o que exige uma atenção redobrada no sentido de garantir a sustentabilidade da segurança alimentar. Já há algumas décadas o Governo moçambicano dá muita importância para combater a fome estimulando não apenas a produção interna de alimentos como a entrada de investimento estrangeiro nesse setor.

Qual o perfil das empresas estrangeiras que mais investem no mercado moçambicano?

Dentre os países investidores, há muito destaque de Portugal, África do Sul e Holanda. Em alguns anos, há também grandes investimentos provenientes de países como a Austrália, a Itália e os Estados Unidos. No caso de Portugal, há um investimento de forma constante, com destaque para pequenos e médios empresários. Outro aspecto interessante do investimento português, que não é revelado pelas estatísticas, é que as empresas vão para Moçambique para ficar para sempre e, portanto, o lucro de um ano é quase sempre reinvestido no ano seguinte.

Na sua opinião, como a economia moçambicana deverá evoluir nos próximos anos?

Estou muito esperançoso quanto ao futuro de Moçambique. Há poucas semanas houve uma grande alteração nas altas patentes da polícia, o que pode significar uma melhoria do ponto de vista da segurança interna. No que diz respeito aos conflitos entre o Governo e a oposição, a pressão política internacional para que haja um entendimento e a vontade dos governantes e do líder da Renamo são tão grandes que há espaço para esperar que esse problema também seja resolvido. A única limitação ao desenvolvimento econômico que Moçambique não consegue controlar é a recente baixa dos preços das matérias-primas nos mercados internacionais. Mesmo assim, o preço do barril de petróleo já passou por uma considerável subida desde o início de 2016 e hoje há uma perspectiva de evolução do preço, o que pode contribuir para que a exploração de gás natural em Moçambique seja mais atrativa.

Qual a sua visão sobre a evolução futura da economia de Portugal?

Há, hoje, uma aparente vontade por parte do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, de dar um suporte para que a política do atual governo dê certo. Essa política é uma aposta de maior expansão, com mais estímulo ao consumo. Se essa estratégia tiver sucesso, Portugal conseguirá viver um período de bom crescimento com uma forte estabilidade, permitindo que o país saia efetivamente de uma crise que já dura há muito tempo. Mesmo assim, eu ressalto que as medidas econômicas adotadas pelo governo anterior foram, na minha opinião, as mais certas no momento em que foram desenvolvidas uma vez que eram as opções que permitiriam o melhor suporte das altas instâncias europeias.

Por fim, qual a sua opinião sobre o futuro das relações comerciais entre Portugal e Moçambique?

Se Moçambique e Portugal continuarem a crescer nos próximos anos e se as relações políticas entre os dois países mantiverem o elevado nível em que se encontram, temos razões para crer que as trocas comerciais entre os dois crescerão cada vez mais. Além disso, se as portas continuarem abertas no sentido institucional e político, há todas as condições para que, efetivamente, os investidores portugueses continuem a investir em Moçambique.

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