Entrevistamos o CEO da Angola Cables, António Nunes

António Nunes,

Presidente Executivo da Angola Cables

    Em 10 de julho de 2017, teve início na cidade de Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará, a construção de um centro de dados que mudará o futuro tecnológico da região. Idealizado e gerido pela multinacional angolana Angola Cables, o centro faz parte do projeto que inclui a vinda de dois cabos submarinos de fibra ótica: o South Atlantic Cable System (SACS), que ligará Fortaleza a Luanda, e o Monet, que fará a conexão entre Fortaleza e Santos a Miami em parceria com a Google, a uruguaia Antel e a Algar Telecom.

    Com o objetivo de conhecer melhor sobre os projetos da multinacional angolana, entrevistamos o CEO da Angola Cables, António Nunes.

Quais são os principais objetivos do projeto South Atlantic Cable System?

O SACS é o cabo submarino que irá trazer uma disrupção a nível da conectividade internacional. Esse cabo irá ligar o Atlântico Sul através da ponte digital entre Angola e o Brasil. Os dados poderão fluir a uma velocidade de 63 milisegundos entre os dois continentes, coisa que até agora leva cerca de 350 milisegundos a ser feita. O posicionamento estratégico dos datacenters mundiais terá outra variável de análise, pois essa infraestrutura trará várias vantagens no roteamento do tráfego da Internet. O objetivo desse cabo é colocar Luanda e Fortaleza no mapa das comunicações mundiais.  

Muitos obstáculos já foram enfrentados até agora para a realização do projeto?

Naturalmente que um projeto dessa envergadura já teve vários obstáculos. Muitos deles, bastante complicados de serem resolvidos. Contudo temos estado a resolver cada um deles em tempo útil. Tivemos o início da construção da estação de aterragem e datacenter no passado dia 10 de julho em um evento em Fortaleza e teremos o início do lançamento do cabo já previsto para 9 de agosto de 2017. Iremos marcar essa data com um evento em Luanda.

 Em 10 de julho, teve início a construção do centro de dados em Fortaleza. Qual será a contribuição desse centro para o Nordeste brasileiro?

Assim como trazer tecnologia de ponta para a região, estamos contribuindo com o desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Hoje a maior parte desse tipo de infraestrutura está instalada em outras regiões do país. Gerar empregos com alto valor agregado, promover a educação e o conhecimento são alguns dos valores que pretendemos atingir. No entanto, o fato de estarmos a trazer grandes investimentos, que suportam o desenvolvimento do Polo Tecnológico de Fortaleza, irá capitalizar bastante para a cidade e para a região. O datacenter que estamos construindo será implantado em uma área de cerca de nove mil metros quadrados na Praia do Futuro e será dos mais modernos existentes no mercado mundial, tendo certificação do tipo TIER III. Essa moderna infraestrutura tecnológica trará grandes benefícios para a economia local, nomeadamente para as áreas de pesquisa científica, desenvolvimento de aplicativos e softwares, sustentabilidade de empresas e negócios, assim como o mercado de entretenimento e mídia. 

Qual será o perfil da mão-de-obra contratada para esse centro? Quantos empregos deverão ser gerados?

Um centro desses não emprega diretamente muita mão-de-obra. Contudo, entre empregos diretos, indiretos e induzidos, calculamos que, por conta dos nossos projetos, sejam criados entre 600 e 700 postos de trabalho. Boa parte dessa mão-de-obra será oriunda da própria região.

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Quais são os planos da Angola Cables para o futuro?

Neste momento estamos muito focados em operacionalizar os três projetos que estamos a desenvolver no Brasil e trazer com eles rentabilidade e oportunidades futuras. O Monet nos próximos meses e o SACS e o datacenter a partir do primeiro trimestre de 2018. A capacidade e o conhecimento que estamos a acumular poderão, sem sobra de dúvidas, dar-nos sinergias no desenvolvimento de atividades similares. Poderemos, com isso, desenvolver algumas atividades similares ou agregadoras de uma forma muito eficiente.

Qual a situação atual do setor da Tecnologia da Informação em Angola?

O setor das telecomunicações em Angola foi o que mais cresceu nos últimos tempos. Angola tem uma população muito jovem e criativa, capaz de se adaptar rapidamente aos sistemas de informação. Prova disso foi o crescimento vertiginoso da telefonia móvel em Angola. O Estado angolano tem igualmente colocado o setor das telecomunicações como prioritário na sua agenda de trabalho. Foram feitos grandes investimentos, tanto nas redes móveis e fixas assim como nos satélites de fibras óticas submarinas. Angola está sem dúvida a se preparar para o futuro digital que se aproxima a grande velocidade.

Na sua opinião, como esse setor evoluirá em Angola no curto/médio prazo? Por quê?

Inevitavelmente, o setor das TI vai crescer. As tendências mundiais de evolução são bastante claras e Angola não se colocará de fora dessa onda de evolução. Acredito que os setores de TI e Telecom irão superar o setor petrolífero a médio prazo. As maiores empresas do mundo começam já a ser as do setor das TIC. Contudo, Angola ainda tem uma longa jornada a percorrer. A capacitação de quadros nacionais é uma das grandes prioridades que temos neste momento. Temos que criar competências locais para que os produtos digitais produzidos a nível nacional possam ser comercializados além das fronteiras nacionais. A própria Angola Cables surgiu por conta da intenção do governo angolano em colocar o país no mapa das telecomunicações internacionais e de transformar Angola em um dos hubs do continente africano.

Como acredita que será a evolução econômica de Angola durante os próximos anos? Por quê?

Angola é um país ainda jovem do ponto de vista histórico. Teremos de repensar a forma como estamos a gerir as capacidades que temos. O potencial angolano é enorme e, por isso, acredito que seremos capazes de dar a volta à situação complexa que hoje vivemos.

Como acredita que será a evolução da economia do Brasil durante os próximos anos? Por quê?

Assim como Angola, o Brasil é um país com enorme potencial. Naturalmente que se tem de criar estabilidade política para se poder fazer crescer a economia. Contudo, e tomando em conta as suas principais características e história, o país irá sair desse momento adverso ainda mais forte. Acredito que a curto prazo a economia brasileira, que já mostra sinais de recuperação, voltará a apresentar bons índices e evolução.

Qual a sua opinião sobre o futuro das relações econômicas entre esses dois países? Por quê?

As relações econômicas entre Brasil e Angola são bastante antigas e muito sólidas. Os dois países têm muitas situações similares e podem desenvolver em vários aspectos sinergias importantes. Acredito que, com a construção dessa ponte digital, a relação entre os dois países virá ainda a se fortalecer e a render mais frutos para ambos sob o ponto de vista socioeconômico. São países que tem aspectos culturais e sociais em comum e, por isso, essa ligação irá criar sinergias para desenvolver benefícios nas suas economias.

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