Entrevistamos Prof. Luís Cunha, Vice-presidente do Observatório Lusófono de Actividades Económicas

 

 

Prof. Luís Cunha,

Vice-presidente do Observatório Lusófono de Actividades Económicas

 

 

 

 

 

Na sua opinião, quais são os maiores potenciais empresariais da CPLP?

Tem sido defendida ultimamente, nomeadamente pelo presidente da Confederação Empresarial da CPLP, Salimo Abdula, e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, a criação de um verdadeiro mercado econômico entre os vários membros da CPLP. Essa medida mudaria o foco da língua para a economia, usando as palavras da secretária executiva, Maria do Carmo Silveira, e pensamos no OLAE ser o caminho correto. Integrando economias tão diversas como Portugal e o Brasil ou a Guiné-Bissau e São Tomé e Principe, passando por Angola e Moçambique, a comunidade deveria ser capaz de aproveitar essas diversidades quer em termos de desenvolvimento científico e tecnológico, quer em termos de recursos naturais, para as complementar e daí desenvolver estratégias de desenvolvimento conjunto para os diferentes países.  Como exemplo dessas complementaridades, podemos considerar o agronegócio e a produção de bens alimentares, áreas onde Portugal e o Brasil detêm um conhecimento elevado que poderá, e deverá, ser usado para potenciar o desenvolvimento da agricultura e pecuária nos restantes países que, possuindo áreas férteis incomensuráveis, ainda não estão a ser capazes de delas retirar a produtividade possível. O OLAE está presentemente a trabalhar, em especial nos domínios avícola e agrícola, com alguns empreendedores em Angola e Moçambique para os ajudar com conhecimento, a desenvolver as estratégias produtivas mais adequadas, quer em termos de utilização de recursos, quer em termos de mercado, para o desenvolvimento das suas explorações. O setor da Indústria é outro em que temos ajudado empresários angolanos a desenvolver as suas estratégias. Em todos esses casos, um dos objetivos subjacentes a esses projetos tem sido não apenas a criação de riqueza no país, mas também a substituição de importações, tão pesadas para essas economias africanas, por produção nacional e, em alguns casos, a criação de negócios capazes de exportar parte da sua produção.

Por outro lado, quais acredita que são os maiores obstáculos para o crescimento do setor empresarial nessa comunidade?

A generalidade das empresas ainda não percebeu o potencial imenso de uma comunidade desta dimensão, por isso ainda não estão focadas no seu aproveitamento de uma forma global. As principais iniciativas são ainda de natureza bilateral, ou seja, envolvendo o estabelecimento de relações e parcerias com um dos países membros da comunidade. Iniciativas de divulgação do potencial conjunto da CPLP, levadas a cabo quer pelas entidades oficiais dos diversos estados, quer por associações empresariais, câmaras de comércio e outras entidades poderiam potenciar a percepção de todo o potencial de negócio subjacente à CPLP. Neste particular, o caminho para o mercado econômico, pela quebra de barreiras comerciais e criação de uma zona de comércio livre, seria um passo decisivo.

- Continua depois da publicidade -

- - -

Quais sugestões daria para uma PME interessada em expandir seus negócios para outro país dentro da CPLP?

A melhor sugestão que posso dar a uma PME nessas circunstâncias será recorrer à ajuda de profissionais experientes, com conhecimento das realidades dos diferentes países para onde se pretendam expandir. O caminho da expansão não é fácil, por isso é melhor segui-lo com a ajuda de “guias” experimentados e conhecedores das realidades e especificidades do terreno. O OLAE, pelo seu histórico de trabalho, tem os conhecimentos e competências necessários para prestar todo o apoio de que as PME necessitam no âmbito dos seus processos de expansão para os países africanos da CPLP.

A economia de Angola passa hoje por um período de desafios. Quais fatores acredita serem essenciais para reverter esse cenário?

Angola deverá, em primeiro lugar, reduzir a sua dependência extrema do petróleo. O país tem um potencial produtivo nas áreas da Agricultura e Pecuária imenso e inexplorado, por isso não está a ser capaz de se bastar em termos de produção de bens alimentares, dependendo de importações, extremamente dispendiosas para a economia do país. É urgente desenvolver esse potencial produtivo, antes de se dedicar a outros setores, também importantes, como por exemplo a Indústria. A exceção nesse caso seria o Agronegócio e a transformação dos produtos de forma a acrescentar valor a estes, nomeadamente tornando-os passíveis de exportação. Angola tem uma costa com uma dimensão importante. A pesca e a exploração do mar poderiam ser outro dos setores a desenvolver. Finalmente, destacaria a necessidade de dotar o país de vias de comunicação que permitam a circulação de pessoas e, fundamentalmente, o escoamento das mercadorias dos pontos de produção até aos mercados de consumo de forma rápida e eficiente.

Quais os erros mais comuns cometidos por empresas estrangeiras quando investem em Angola pela primeira vez?

Desconhecimento e má preparação. O mercado angolano tem especificidades muito diferentes do português. Muitas empresas vão para Angola fazer negócio como se estivessem em Portugal ou mesmo na Europa, o que normalmente não funciona. Não recorrer a fontes de informação que lhes permitam adaptar esses investimentos às realidades é dos erros mais comuns cometidos pelas empresas, que acham que não necessitam da ajuda de consultores especializados, como o OLAE, por exemplo. Por outro lado, a maioria das empresas e dos investimentos em Angola apresentam um foco numa ótica de curto prazo – tentar ganhar muito dinheiro rapidamente – ao invés de optar por uma estratégia de médio ou longo prazo, realizando investimentos sustentáveis.

Outro país que enfrenta instabilidade económica é Moçambique. Como estima que a economia moçambicana evoluirá nos próximos anos?

Temos uma perspectiva muito otimista no médio prazo, superando num horizonte temporal de 4 a 5 anos os desafios que a conjuntura impõe no curto prazo. Acreditamos que Moçambique vai encontrar a estabilidade política e econômica que lhe permitirão voltar a ser o mercado africano com maior atratividade, nomeadamente para as empresas portuguesas. Além de apoiar as empresas portuguesas que pretendem expandir os seus negócios para esse país africano, o OLAE está presentemente também a trabalhar com alguns grupos empresariais moçambicanos, ajudando-os a desenvolver estratégias sustentadas de crescimento de negócio no médio/longo prazo, bem como a procurar alternativas de financiamento, a taxas muito atrativas, junto de instituições multilaterais, como por exemplo, o Banco Africano de Desenvolvimento. Este trabalho dá-nos um conhecimento privilegiado da realidade e do mercado moçambicano, bem como dos mecanismos de financiamento mais adequados, que é uma mais-valia também para as empresas, em especial as portuguesas, que pretendem apoio na entrada neste mercado tão apetecível.

Na sua opinião, quais setores empresariais de Moçambique deveriam atrair maior interesse de investidores?

Tal como em Angola, o setor primário necessita de um grande desenvolvimento, pelo que a Agricultura, a Pecuária e as Indústrias relacionadas com estes sectores são dos mais atrativos neste momento, em que o país necessita de substituir a importação de bens de primeira necessidade por bens produzidos localmente. Moçambique, sendo membro da SADC, pode ainda ser uma porta de entrada neste mercado para investidores  que, beneficiando da facilidade da língua comum, podem investir em Moçambique na produção de bens transacionáveis para o mercado mais alargado da SADC.

Quais os principais atrativos ao investimento na Guiné-Bissau?

A Guiné-Bissau tem um enorme potencial nos setores do Mar e do Turismo, pelo que serão esses os mais atrativos no imediato. O país tem um potencial piscatório imenso que não está a ser capaz de aproveitar, vendo esse potencial ser aproveitado de forma muitas vezes à margem da lei, por embarcações de pesca, sem licença, de outros países que vem pescar para o mar bissauguineense. No que concerne ao setor do Turismo, as principais lacunas prendem-se, por um lado, com a falta de infraestruturas turísticas e, por outro, com a falta de mão-de-obra especializada, pelo que seria necessário investir no setor da formação profissional nessa área.

Quais os principais desafios para o investimento em Cabo Verde?

O potencial de Cabo Verde passa, em grande medida, pelo mar. O mar pode ser uma fonte importante de recursos, nomeadamente ligados à Pesca ou mesmo à Aquacultura. Por outro lado, o potencial turístico, com a sua ligação ao mar (praia, surf, atividades subaquáticas, etc.) está ainda muito pouco explorado. Associado a esses dois setores, a formação profissional necessita também de um forte desenvolvimento de forma a ser capaz de formar os profissionais necessários ao desenvolvimento dessas atividades.

Por fim, qual a sua opinião sobre a evolução econômica e empresarial da CPLP nos próximos anos?

Estamos muito otimistas quanto ao potencial de evolução da CPLP para os próximos anos. Angola e Moçambique são dois países que, pela sua dimensão e potencial de desenvolvimento, poderão apresentar taxas de crescimento próximas dos dois dígitos, assim saibam aproveitar o potencial produtivo dos seus territórios e realizar/apoiar os investimentos certos. Os restantes países africanos da CPLP, apesar da sua menor dimensão e peso, apresentam também um enorme potencial de desenvolvimento. Brasil e Portugal, pelo seu maior índice desenvolvimento científico e tecnológico e capacidade de investimento, deverão ter aqui um papel importante no apoio aos países menos desenvolvidos para que estes possam usufruir do conhecimento e experiência dos primeiros e aproveitar ao máximo o seu potencial produtivo. Importante para que tudo isto seja possível, a queda das barreiras existentes ao comércio e à circulação de pessoas constitui um fator fundamental.

Acompanhe a Mercados & Estratégias