Turismo Açores, o modelo de sustentabilidade a seguir nos países da CPLP

    Hoje, o turismo é uma carta a ter em conta nas contas da economia de qualquer país, ignorar esse setor que já representa em muitos países mais do que 10% do PIB é um erro crucial para qualquer economia. Nos últimos cinquenta anos, o setor do turismo tornou-se um dos maiores casos de sucesso, tornou-se uma parcela importantíssima para o equilíbrio da balança de pagamentos, para o equilíbrio da criação de emprego, de novas infraestruturas e para o desenvolvimento global. Ao todo, o turismo representa 9% do PIB Mundial e os dez países com maior receita de turismo representam sensivelmente 563,5 bilhões de euros em receitas!

    Em Portugal, estima-se que o impacto do turismo no PIB para 2017 possa chegar aproximadamente aos 16%. Em 2014, o turismo em Portugal representou apenas 1,6% da Europa e Ásia Ocidental num total de 9,3 milhões de turistas, originando uma receita de 12,56 milhões de euros e, em boa verdade, um setor terciário com um peso desta dimensão não pode ser levado tão levianamente como se vinha a fazer até agora.

    Atualmente, o turismo português tem servido e muito para o desenvolvimento regional, mas, para que o turismo tenha um impacto verdadeiramente “positivo”, é essencial que se comece rapidamente a revolucionar o modelo “tradicional de turismo” não permitindo que este domine e condicione o quotidiano dos habitantes “nativos”.

    Uma má aposta no modelo turístico a aplicar pode causar impactos negativos nas culturas e economias locais, e pode inclusivamente causar danos irreversíveis ao ambiente, o que nos leva à ideia cada vez maior da urgência da implementação de um turismo sustentável.

    O arquipélago dos Açores tem sido um verdadeiro caso de sucesso no que respeita ao impacto das medidas sustentáveis do turismo. A sua marca de “turismo da natureza” tem sido capaz de promover contínuos crescimentos anuais e, até Novembro de 2017, apresentava já um crescimento global de 18,8% quando comparado com período homologo de 2016. Mais importante ainda é perceber que os Açores podem vir a ser o primeiro arquipélago do mundo a obter em 2019 a certificação atribuído pela “Global Sustainable Tourism Council” de destino turístico sustentável.

    O melhor de tudo, no entanto, é perceber que o crescimento do setor do turismo açoriano, apesar de díspar, é transversal a todas as ilhas que compõem o arquipélago dos Açores, de onde saliento dois dos melhores exemplos e com maior importância em termos turísticos para a região: a ilha de São Miguel e a ilha do Pico.

    A ilha de São Miguel apresenta um crescimento na ordem dos 25%. É a ilha que detém o maior número de infraestruturas e é também a ilha responsável por cerca de 69% do total de visitantes. É a ilha que detém o aeroporto principal da região e, por esse motivo, é também a ilha que recebe o maior número de voos das mais variadas companhias aéreas (incluindo as denominadas low cost). A sua avenida principal em Ponta Delgada tem tido um estrondoso aumento no aparecimento de novos hotéis, todos eles de grandes dimensões, e majoritariamente com grande percentagem de capitais externos à região.

    A ilha do Pico, por outro lado, possui um crescimento aproximado de 7%, mas, quando comparado com a ilha de São Miguel, apresenta um déficit acentuado de infraestruturas. O seu aeroporto possui apenas duas ligações semanais com o território continental – nomeadamente, ao sábado e à segunda-feira (para 2018 já foi anunciado que passará a receber quatro voos semanais no verão Iata) –, que são proporcionadas exclusivamente pela transportadora aérea regional SATA, e conta apenas com um único Hotel. Em contrapartida, é a ilha com o maior custo por noite e é também a ilha que se apresenta como principal referência do segmento do turismo rural e do alojamento local, apresentando, por isso mesmo, um maior peso na oferta global.7

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    Qual é, porém, o segredo para que o desenvolvimento turístico da Região dos Açores seja tão diversificado (internamente) e ao mesmo tempo tão positivo para todas as ilhas do arquipélago?

    É óbvio que o trabalho do governo regional é importantíssimo e os apoios a fundo perdido, que chegam a atingir os 70% do total do investimento para a instalação de novas unidades de alojamento, tem consequentemente levado a um maior incremento de empresas neste setor. Por outro lado, o Governo Regional criou, também em parceria com a SATA, um modelo de encaminhamento gratuito dos passageiros que pretendam viajar por companhias aéreas de baixo custo – desde que tenham em mente como destino final qualquer uma das ilhas com menores condições aeroportuárias –, dada a “impossibilidade” de operacionalidade da maioria dos aviões nos aeroportos disponíveis e o acesso das low cost ser apenas nas ilhas de São Miguel e da Terceira.

    Mais do que incentivos financeiros ou encaminhamentos gratuitos, o principal aspeto positivo a salientar é a realização do trabalho do Governo Regional conjuntamente com outras entidades públicas e/ou privadas, que tem permitido implementar verdadeiros modelos de turismo sustentável, isto é, modelos que tem visado a compatibilização da vontade e dos anseios dos turistas com as necessidades dos residentes das ilhas, estimulando, principalmente, o desenvolvimento econômico e social das populações locais e sem colocar em causa as condições ambientais das ilhas.

    A classificação de áreas para Patrimônio Mundial da Unesco – como é o caso da Cidade de Angra do Heroísmo na Ilha Terceira e da Paisagem da Cultura da Vinha na Ilha do Pico, ou até mesmo da recente candidatura da Cultura Baleeira da Vila das Lajes do Pico, na Ilha do Pico, até á criação do Geoparque Açores com acesso a 121 Geossítios, dos quais 117 são em áreas terrestres e 4 são áreas marinhas – tem sido dos maiores impulsionadores para a promoção do “Turismo de Natureza”. Por outro lado, todas as ilhas possuem um Parque Natural com acesso a trilhos, áreas protegidas e centros ambientais que podem ser “vivenciados” por quem visita os Açores.

    Uma das maiores atrações do turismo açoriano, que mês após mês tem vindo a ver aumentar a sua afluência, desenvolve-se no parque natural da Ilha do Pico e consiste em subir os 2351m de altura da Montanha do Pico, montanha essa que, além de ser o ponto mais alto de todo o território português, é também o terceiro maior vulcão do Oceano Atlântico. Dado o fenômeno da procura por esta “atração”, várias foram as empresas constituídas para desenvolver essa atividade, contudo, dado o elevado número de visitantes à montanha, o Governo Regional, por meio da direção dos Parques Naturais, decidiu por bem implementar um limite diário de visitas, o que tem apenas o objetivo de minimizar os impactos dessas atividades ao meio ambiente. O mesmo processo de “salvaguarda” do patrimônio natural passa-se com outras tantas atividades do turismo de natureza, como é o caso do birdwatching ou do whalewatching, com o primeiro exemplo a ser a última grande aposta nos Açores.

    Se o Pico tem tanta afluência de turismo, porém, porque é que ainda só mantém um Hotel?

    Esta é a verdadeira questão de um Case Study. É que, incrivelmente, os habitantes da Ilha do Pico olharam para a conjuntura de apoios disponíveis e eles próprios foram fazendo pequenos projetos de alojamento local e de turismo rural, permitindo uma divisão quase “igualitária” dos fundos por todos os habitantes. Dessa forma, não só inibiram o aparecimento de grandes Hotéis, como permitiram que um único apoio concedido conseguisse colmatar várias frentes, nomeadamente o aumento da oferta de dormidas, a possibilidade do aumento do rendimento de um habitante, da criação de novos postos de trabalho e, principalmente, de criar a solução para um problema que se vinha a agravar com o aparecimento de ruínas, isto é, permitiu requalificar urbanisticamente as freguesias que se vinham a transformar em verdadeiras freguesias fantasmas através da reconstrução das ruínas existentes (que é um dos requisitos principais para a concessão dos apoios financeiros).

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